Ttulo: O danbio ao Entardecer.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1990.
Ttulo Original: Two Hearts in Hungary.
Gnero: romance.
Digitalizao: Fernando Jorge Alves correia.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.

Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente 
leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de
direitos de autor, este ficheiro no pode ser distribudo para outros
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BARBARA CARTLAND
A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, com 350 milhes
de livros vendidos em todo o mundo.

O Danbio ao Entardecer...

Violinos ciganos vibravam enchendo o ar com uma doce melodia. O prncipe
Mikls enlaou Aletha pela cintura e conduziu-a para o jardim. Depois de
envolv-la com um olhar, disse: "Queria ensinar-lhe tudo sobre o amor.
No o que voc conheceria num
casamento por convenincia na Inglaterra mas aquele ardente e
irresistvel da Hungria... Entretanto no posso despos-la. Voc no 
nobre e jamais ousaria torna-la minha amante!"
com o corao partido, Aletha viu seus sonhos carem por terra
na Hungria, terra de amor e sonhos. Aletha resistir a tal fascnio?

Nova Cultural
Barbara Cartland
O Danbio ao entardecer.

BARBARA CARTLAND
O Danbio ao entardecer.
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
Ttulo original: Two Hearts in Hungary
Copyright: (c) Barbara Cartland
Traduo: Carmita Andrade
Copyright para a lngua portuguesa: 1990
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 -3 andar
CEP 01452 - So Paulo - SP - Brasil
Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.
Impressa na Artes Grficas Parmetro Ltda.

NOTA DA AUTORA
Na Pscoa de 1987 visitei Budapeste e achei-a uma das mais lindas cidades
europeias. Porm tudo ali era diferente do tempo em que a imperatriz
Elizabeth, da ustria, considerava aquela cidade a alegria e o encanto do
seu corao.
Durante a revoluo, como era inevitvel, o palcio real foi despojado de
seus tesouros e o mesmo  agora um museu. O Palcio Karolyi foi arrasado
em 1933, e numerosas casas foram destrudas.
Embora parecesse no haver pobreza em Budapeste, eu estava ciente das
restries impostas aos que se encontram atrs da Cortina de Ferro, e os
hngaros sempre foram amantes da liberdade.
Eu seguia de carro pela estrada que acompanha o Danbio, tendo vistas
belssimas de ambos os lados da mesma, e quis saber:
- Onde esto os cavalos? Parece-me estranho vir  Hungria e no ver
cavalos!
-  Esta  uma rea de lazer - informaram-me. - Ficou para trs a cidade
que  a rea comercial. A prxima rea  a agrcola e, muito alm desta
ltima, ter ocasio de ver alguns dos nossos cavalos.
No deve haver nada mais frustrante para os hngaros do que uma situao
dessas, uma vez que os cavalos tm sido, no decorrer dos tempos, parte de
suas vidas, sendo considerados quase parte da prpria famlia.
Ao deixar a Hungria, meu passaporte foiapresentado trs vezes e em todas
elas examinado pelos soldados que se achavam no aeroporto, armados com
grandes pistolas no cinto.
Deduzi que eles queriam ter plena certeza de que eu no era uma cidad
hngara tentando fugir do pas.

CAPTULO I
1878

A manh estava to maravilhosa que lady Aletha Ling decidiu cavalgar por
mais tempo do que o habitual.
Dando-se conta de que estava atrasada para o desjejum, dirigiu-se
depressa para casa e, ao entrar na sala onde o pai j se encontrava,
desculpou-se:
- Sinto muito pelo atraso, papai. Confesso que sentia-me to bem
cavalgando nesta manh ensolarada que me esqueci das horas.
O duque de Buclington sorriu para a filha, que, aliviada, notou que ele
no ficara aborrecido com seu atraso. Na verdade o pai mostrava-se to
satisfeito que a filha ficou imaginando qual poderia ser o motivo daquela
satisfao.
Indo ao aparador, Aletha serviu-se, escolhendo um pouco de cada um dos
pratos, que continham peixe, salsichas, rins, ovos e cogumelos frescos.
- Recebi uma notcia auspiciosa, minha filha! - o duque participou, assim
que Aletha sentou-se  mesa.
- Boa notcia, papai? De quem? - a filha perguntou, depondo o garfo no
prato.
- A imperatriz da ustria escreveu-me.
- Isto quer dizer que ela aceitou o seu convite?
- Aceitou - o duque respondeu com satisfao. - Sua Majestade vir passar
uma semana aqui nesta propriedade, depois ir para Cottesbrook Park, em
Northamptoshire.
- Ento ela ir caar no centro de caadas de Pytchley!
- Sim. O conde Spencer ficar encantado!
Veio  mente de Aletha que dois anos atrs a imperatriz havia alugado a
Easton Neston, em Towcester, desejando caar
no famoso centro de caadas de Bicester e com os ces do duque de
Grafton. Seria pouco dizer que a imperatriz causara sensao. Os ingleses
no acreditavam que ela fosse uma excelente amazona. Na mente deles, uma
mulher to linda seria, quando muito, uma simples apreciadora de um
passeio pelo parque montada num belo puro-sangue.
Na verdade, os dois cavaleiros escolhidos para acompanhla, o capito
Middleton e o coronel Hunt, no ficaram contentes com a incumbncia.
- Acompanhar a imperatriz?  claro que farei isso, embora prefira
cavalgar sozinho - o capito Bay Middleton reclamara quando recebera do
duque a mencionada incumbncia.
Todavia o capito viu como se enganara ao conhecer Elizabeth. Ele, sendo
um dos melhores cavaleiros da Inglaterra, reconheceu que a imperatriz
era, alm de uma mulher de rara beleza, uma amazona brilhante.
Como no podia deixar de ser, ele apaixonou-se por Elizabeth.
Aletha achou que seu pai tambm ficara impressionado com o carisma
irresistvel da imperatriz.
Logo depois de sua partida para a ustria, a imperatriz convidou o duque
de Buclington para visitar seu pas. O convite foi aceito, e o duque
voltou da ustria ainda mais encantado com Elizabeth.
H algumas semanas, o pai de Aletha havia escrito  imperatriz
convidando-a para hospedar-se em Ling Park. A espera da resposta de
Elizabeth deixara o duque ansioso e at mal-humorado. Mas finalmente
chegara a to esperada carta. A imperatriz aceitara o convite.
- Fico muito feliz por voc, papai! Ser maravilhoso conhecer a
imperatriz.
H dois anos Aletha estava apenas com dezesseis anos e no havia ido a
nenhuma das festas oferecidas  imperatriz, tampouco participara das
caadas.
Nessa ocasio ela ainda estava no colgio. Ao voltar para casa pouco
antes do Natal, todos em Ling s falavam na imperatriz.
Notando o entusiasmo do pai, Aletha compreendeu que Elizabeth tornara-se
a mulher ideal para ele, um homem que vivia to s depois de ter perdido
a esposa.
O duque de Buclington tinha sem dvida suas admiradoras, todas elas
desejosas de faz-lo feliz. Porm o duque preferia viver ocupado com suas
propriedades, seus cavalos e, naturalmente, sua filha a quem amava
demais.
Aletha tambm adorava o pai, e ambos detestavam ficar separados. Ela fora
mandada para um colgio, simplesmente porque era imprescindvel que, dada
sua posio social, recebesse uma educao esmerada.
Somente agora Aletha iria debutar e, tendo terminado seus estudos,
poderia ficar novamente ao lado do pai.
Enquanto comia, Aletha pensou na magnfica matilha que o pai possua e
pensou que quando recebessem seus distintos hspedes seriam organizadas
caadas excitantes.
O duque, que acabava de pr sobre a mesa a carta que estivera lendo,
exclamou subitamente:
- J sei o que devo fazer! No sei por que isto no me ocorreu antes!
- O que foi, papai?
- Quando a imperatriz hospedou-se em Easton Neston, trouxe consigo seus
cavalos, todos adquiridos na Hungria.
- Eu no sabia disso, papai.
- Ns precisamos de mais cavalos. Claro que precisamos, e vou compr-los
na Hungria.
Os olhos de Aletha ganharam um brilho sbito.
- Oh, papai! Sempre achei que voc devia ter cavalos hngaros! - ela
exclamou. - Sei que a imperatriz ama a Hungria, e os soberbos cavalos que
ela possui so desse pas.
- Se ela prefere montar cavalos hngaros, ns vamos oferecer-lhe esses
animais; estou determinado a adquirir os mais extraordinrios exemplares
que houver na Hungria.
- Claro! Os melhores! - a filha concordou.
Aletha no ignorava que as cocheiras do pai j estavam cheias de cavalos
excepcionais e que os puros-sangues-reservados para corridas eram tambm
extraordinrios. Contudo, sempre havia lugar para outros soberbos
animais.
Ela prpria sempre almejara montar os fogosos e velozes cavalos hngaros
que maravilhavam os apreciadores e criadores europeus.
- Se voc pretende ir  Hungria, papai, quero ir tambm. O duque
suspirou.
- Gostaria de poder fazer esta viagem, mas deve lembrarse de que tenho
que ir  Dinamarca na prxima semana.
- Oh, eu me havia esquecido disso! - Aletha exclamou com um pequeno
grito. - Tem mesmo de ir, papai?
- Como poderei recusar? Terei que representar Sua Majestade. Ela tocou no
assunto novamente h dois dias.
- Seria muito mais divertido ir  Hungria!
- Concordo com voc; porm, j que me  impossvel fazer isso, Heywood
ter de ir comprar os cavalos para mim.
James Heywood era o administrador do duque de Buclington. Tratava-se de
um cavalheiro de boa famlia, cuja fortuna, infelizmente, devido  m
especulao, se perdera.
Heywood fora um cavaleiro excelente e havia conquistado inmeras vitrias
com seus prprios cavalos, participando de corridas como amador.
Vendo-se forado a conseguir um emprego para se manter, comeara a
trabalhar para o pai do duque, vinte anos atrs. O falecido duque
confiara na capacidade de Heywood e, por viver sempre muito ocupado,
entregara ao administrador a compra de quase todos os cavalos que
possua.
Apesar de j estar envelhecendo, Heywood continuava com a mesma argcia
quando se tratava de julgar um cavalo.
- Sim, Heywood deve ir  Hungria - o duque murmurou como se estivesse
pensando em voz alta. - Precisaremos de oito ou dez animais
extraordinrios para juntarmos aos que j possumos.
- Imagino que teremos que trein-los e adapt-los ao nosso clima; cr que
conseguiremos isso at o outono?
O duque sorriu.
- Asseguro-lhe que faremos o melhor possvel para alcanarmos esse
objetivo. S quero ver a alegria da imperatriz quando montar os cavalos
excepcionais que conseguiremos para ela.
Ao notar o brilho nos olhos do pai  simples meno da imperatriz, Aletha
desejou que ele encontrasse algum que viesse ocupar o lugar deixado pela
me.
Pessoalmente, ela preferia ter o pai s para si, mas reconhecia
que uma segunda esposa o tornaria mais feliz, e era a felicidade do
pai o que ela desejava.
O duque de Buclington era ainda um belo homem e no tinha nem cinquenta
anos. Ele se casara muito jovem, e seu filho estava com vinte e trs
anos. Havia cinco anos de diferena entre Aletha e o irmo.
O corpo do duque era o de um atleta; seus cabelos, ainda escuros,
revelavam apenas alguns fios brancos nas tmporas, e sua aparncia era a
de um homem com muito menos idade do que a que realmente contava.
"Ser timo para papai ter a imperatriz aqui em casa", Aletha pensou com
altrusmo.
No mesmo instante ocorreu-lhe que era uma pena o pai no poder ir 
Hungria, o que significava que ela no iria tambm, e fazer essa viagem
seria uma aventura que ela apreciaria muitssimo. Porm compreendia que
ele no tinha como deixar de atender a um pedido da rainha.
Logo a temporada teria incio, e ao voltar o duque ver-se-ia envolvido
com mil e um compromissos sociais. A filha, sendo debutante, teria seu
baile de gala em Londres e tambm seria apresentada no Palcio de
Buckingham.
- Preciso entrar em contato com Heywood imediatamente
- o duque estava dizendo. - No tenho certeza se ele se encontra aqui ou
se foi para Newmarket.
Aletha ficou pensativa por um momento.
- Tenho quase certeza de que ele se encontra em Ling. Vi o sr. Heywood h
dois dias e sei que ele s pretende ir para Newmarket na semana que vem.
- Ento vou pedir para algum ir cham-lo; quero v-lo imediatamente.
Mal tocou a campainha de ouro que se achava sobre a mesa e a porta abriu-
se. Como era tradicional, os criados no ficavam na sala por ocasio do
desjejum.
Bellew, o mordomo, apareceu imediatamente.
- Mande um dos cavalarios ir o mais depressa que puder chamar o sr.
Heywood - o duque ordenou.
- Imediatamente, Alteza!
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Dada a urgncia que pressentira na voz do duque, Bellew deixou a sala bem
mais depressa do que costumava faz-lo. O duque dirigiu-se  filha:
- Eu estava pensando se deveramos redecorar a "Sute da Rainha". O que
acha disso?
- No creio que seja necessrio, papai. H dois anos voc redecorou esses
aposentos para a princesa Alexandra e tambm redecorou os aposentos
ocupados pelo prncipe de Gales. Desde ento esses cmodos foram to
pouco usados...
-  verdade, e ns dois sabemos que a imperatriz estar mais interessada
em nossas cocheiras. - O tom do duque era de orgulho.
Pai e filha sabiam que as cocheiras de Ling abrigavam os mais fantsticos
cavalos do condado, animais que faziam inveja aos outros senhores de
terras das redondezas.
- Nossos caadores certamente ficaro encantados - o duque prosseguiu. -
Eles ficaram um tanto ressentidos porque a imperatriz preferiu o centro
de caadas de Bicester, mas este ano certamente se vangloriaro do fato
de a imperatriz ter escolhido Pytchley.
- A est um bom motivo para eles se esmerarem quanto  aparncia, e eu
tambm fao questo de um traje novo de montaria!
- Suponho que exigir um traje feito por Busvine, o alfaiate mais luxuoso
de Londres! - o duque observou sorrindo.
- Naturalmente, e voc precisar encomendar alguns pares de botas a
Maxwell.
- Detesto botas novas! As velhas so bem mais confortveis! - o duque
reclamou.
- Mas no so nada elegantes! - a filha insistiu e levantou-se para beijar
o pai. - Estou contente por v-lo to entusiasmado com a vinda da
imperatriz! Sei que ela o far feliz; alm disso, todos os mais elegantes
e mais importantes cavalheiros de Londres ficaro morrendo de inveja de
voc!
O duque riu.
- Voc me lisonjeia! Mas sabe to bem quanto eu, minha querida, que a
imperatriz vir a Ling no por mim, mas por causa dos meus cavalos!
- Ora, est sendo ridiculamente modesto, papai - Aletha provocou-o.
Ningum ignora que a imperatriz adora cavalheiros bonitos! Um passarinho
me segredou que quando voc esteve em Viena ela danou com voc todas as
noites e muito mais vezes do que danou com outros cavalheiros.
- No sei com quem andou conversando para saber dessas bisbilhotices
absurdas! - O duque censurou a filha, porm no conseguiu disfarar o
quanto se sentia lisonjeado.
Aletha, por sua vez, dizia a si mesma que seria impossvel uma mulher no
achar o duque de Buclington um homem muitssimo atraente.
Mais tarde, naquele mesmo dia, o duque comunicou  filha que j
conversara com o sr. Heywood sobre sua viagem  Hungria para comprar os
melhores cavalos que houvesse naquele pas.
Novamente Aletha lamentou no poder ir para a Hungria. Ansiava por
conhecer Budapeste; j havia lido sobre a beleza da cidade e sobre as
magnficas estepes onde os cavalos galopavam.
Tambm ouvira falar sobre os luxuosos palcios construdos pelos
aristocratas hngaros. Estes ltimos, ela fora informada, eram os homens
mais belos da Europa. Da ser compreensvel que a imperatriz preferisse
os hngaros aos austracos sem graa.
Na verdade era do conhecimento de todos que a imperatriz sentia-se
tristonha na ustria e s na Hungria sentia-se livre e no reprimida.
No era s o magnetismo do pas que atraa a bela Elizabeth. Havia
histrias a respeito de cavaleiros belos e intrpidos, os quais
declaravam seu amor  imperatriz com palavras cheias de beleza e poesia.
Aletha era uma jovem inocente. Nada sabia sobre os affaires du coeur to
comuns em Londres entre os que frequentavam a Marlborough House, seguindo
o exemplo do prncipe de Gales.
Impressionada com o que se dizia a respeito da imperatriz da ustria,
Aletha ficara interessada em saber mais sobre a linda Elizabeth e aos
poucos fora reunindo informaes sobre ela pelo que ouvia atravs dos
convidados do pai.
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Depois que a imperatriz visitara a Inglaterra, at os criados passaram a
falar incessantemente sobre a real visitante. Aletha ouvia a conversa dos
criados, o que a duquesa certamente desaprovaria se estivesse viva.
Em 1874 a imperatriz visitara o duque de Rutland, no castelo de Belvoir,
e pela primeira vez participara de caadas em solo ingls. Uma das
arrumadeiras do castelo, chamada Emily, viera trabalhar em Ling.
Impressionada com a beleza de Sua Majestade, Emily no se cansava de
fazer comentrios sobre a imperatriz, os quais Aletha ouvia com prazer.
O prprio duque de Buclington fornecia  filha informaes sobre a
imperatriz, embora no se desse conta de tal fato. Certo dia Aletha ouviu
o pai dizendo a um de seus convidados:
- A rainha, acompanhada de John Brown, foi visitar a imperatriz em
Ventnor, onde esta alugou uma casa.
- Ouvi mesmo dizer que a imperatriz estava l - o convidado respondeu. -
Soube que ela foi para Ventnor a fim de tratar da filha adoentada, a quem
os mdicos recomendaram banhos de mar.
- Exatamente. Disseram-me que John Brown ficou impressionadssimo com a
beleza da imperatriz!
Esse comentrio do duque provocou risos.  que o escudeiro John Brown era
muito afeioado  rainha, que no escondia seu favoritismo pelo
melanclico escocs. Cortesos e estadistas se ressentiam do fato de, s
vezes, serem tratados com certa rudeza, enquanto John Brown era sempre
merecedor da simpatia e da preferncia de Sua Majestade.
Quando o riso diminuiu, o convidado do duque observou:
- Soube que John Brown ficou embasbacado com a beleza da imperatriz,
porm a pequena Valria assustou-se com a rainha e chegou a dizer: "Nunca
vi uma lady to gorda! "
Mais risadas ecoaram pela sala, porm Aletha, ouvindo a conversa, estava
mais interessada nos comentrios sobre a linda imperatriz.
Quando Elizabeth voltou  Inglaterra, dois anos antes houve muitos
mexericos sobre ela. Na ocasio, todos associavam
seu nome ao do capito Bay Middleton. Comentavam que a imperatriz vivia
alegre e animada,  no se cansando nunca.
Ela assistiu a todas as steeple-chases e, ao final de uma competio,
entregou a taa de prata ao vencedor.
Era to evidente o entusiasmo de Elizabeth e sua beleza to marcante que
se comeou a especular se tudo isso seria resultado das caadas em si ou
da companhia do homem com quem ela caava.
Aletha tivera oportunidade de conhecer o capito Bay Middleton e pde
compreender por que a imperatriz o admirara tanto. Ele era um homem alto,
de trinta anos, moreno, de cabelos castanho-avermelhados e, sobretudo,
muito bonito.
O nome "Bay" lhe fora dado em homenagem ao famoso cavalo vencedor do
Derby de 1836.
Quando Bay Middleton foi convidado para ir caar em Godollo, ao norte de
Budapeste, o duque de Buclington tambm recebeu o mesmo convite da
imperatriz.
Quando o pai partiu para a Hungria, Aletha desejou ardentemente poder ir
com ele e pediu a Deus que um dia tivesse a oportunidade de conhecer
aquele pas.
Agora a imperatriz estava realmente decidida a vir a Ling! Nada podia ser
mais excitante no s para o duque, mas tambm para ela, os da casa e
aqueles que moravam na vasta propriedade.
Quanto ao sr. Heywood, sem dvida ficou entusiasmado ao receber a
incumbncia de ir  Hungria comprar cavalos para o duque.
- Eu ia mesmo falar com Vossa Alteza sobre uma venda especial a ser
realizada no Tattersall's esta semana - o administrador disse ao patro.
- Mas, se vamos adquirir purossangues na Hungria, no h necessidade de
compra alguma naquele mercado de cavalos.
- E por que no compramos alguns belos animais no TattersalFs alm de
outros na Hungria? Voc somente partir para este pas quando eu embarcar
para a Dinamarca. Haver tempo suficiente para deixarmos os puros-sangues
perfeitamente adestrados at a vinda da imperatriz.
- timo, Alteza! No h nada que me d mais prazer do que gastar seu
dinheiro em belos animaisJ.
O duque riu.
A notcia de que a imperatriz viria para Ling no outono espalhou-se como
um rastilho de plvora pela propriedade, pelas vilas e por todo o
condado.
Nos dias seguintes, visitantes e mais visitantes foram a Ling para saber
se era mesmo verdade que a imperatriz Elizabeth viria passar alguns dias
na propriedade do duque. A todos Aletha repetia que realmente estavam
aguardando a visita de Sua Majestade.
Para ela era um divertimento ver a surpresa, o entusiasmo e at a inveja
nos olhos dos visitantes.
Apesar de a filha assegurar que a sute a ser ocupada pela imperatriz no
precisava ser redecorada, o duque de Buclington fez questo de fazer
alguns reparos nos luxuosos aposentos, a comear pelos retoques nas
folhas de ouro do forro e dos entalhes.
- Quanto tempo ir ficar na Dinamarca, papai? - Aletha perguntou quando o
duque comeou a separar o que pretendia levar na viagem.
- Receio ter que ficar ausente pelo menos duas semanas, minha querida.
Gostaria muito de poder lev-la comigo - o pai respondeu ao retirar do
cofre suas medalhas e condecoraes.
- Seria to bom! Tudo aqui fica to aborrecido sem voc, papai.
- Sua prima Jane vir lhe fazer companhia.
Ao ouvir isso, Aletha fez uma careta, porm no comentou nada. Jane j
era idosa, contava mais de sessenta anos e no ouvia bem.
Morando a apenas umas poucas milhas de Ling e sendo prestativa, a prima
estava sempre disposta a passar algum tempo em Ling fazendo companhia a
Aletha e lhe servindo de chaperon.
Contudo, apesar de toda a sua boa vontade, Jane no deixava de ser uma
mulher entediante. O prprio duque procurava evitar sua presena sempre
que ele se achava em casa.
O consolo de Aletha era que podia escapar das constantes reclamaes e
queixas da prima sobre doenas, indo cavalgar.
Certa vez Aletha havia sugerido ao pai que convidasse uma outra parente
mais jovem para servir-lhe de chaperon, porm
logo constatou que a lady em questo era pssima cavaleira e ficara
melindrada por ter ficado para trs, sozinha, quando cavalgara com outras
pessoas.
bom mesmo, Aletha pensava, era cavalgar ao lado do pai, e quando ele se
achava em Ling havia sempre pessoas interessantes e divertidas que vinham
visit-los dia aps dia.
O duque tambm costumava organizar corridas ponto a ponto e steeple-
chases, das quais tomavam parte seus convidados e os moradores vizinhos.
- No se demore muito, papai - Aletha pediu ao duque.
- Ficarei ausente apenas o tempo necessrio, nem um minuto mais, minha
filha. Por mais que eu goste dos dinamarqueses, acho seus cerimoniais
infindveis e os discursos extremamente cansativos!
- Ser que a rainha no teria outra pessoa para ir em seu lugar? - Aletha
sugeriu sem esconder seu mau humor.
Os olhos do duque ganharam um brilho travesso.
- Sua Majestade quer ser representada por pessoas de talento e bela
aparncia!
A filha riu.
- Nesse caso, no h um nobre capaz de substitu-lo, papai! Chego a
recear que voc deixe para trs um grande nmero de dinamarquesas com o
corao partido.
- No sei de onde voc tira tais ideias! - o pai replicou, porm sentiu-
se envaidecido com o elogio.
 vspera de sua partida, o duque acertou com o sr. Heywood os ltimos
detalhes sobre a misso deste ltimo na Hungria. Ambos passaram a tarde
toda falando sobre cavalos.
O administrador acabou ficando para jantar e enviou um cavalario a sua
casa para buscar um dos seus trajes de noite a fim de se trocar para
sentar-se  mesa com o duque e a filha.
Ao ver Aletha descendo a escada usando um dos seus lindos vestidos
comprados para seu dbut, o sr. Heywood disse:
- Voc se parece muito com sua me, lady Aletha. Sem dvida ser a mais
bela em todos os bailes aos quais comparecer!
- Jamais serei to encantadora quanto mame; porm, como a nica filha de
papai, farei o possvel para que ele se orgulhe de mim.
- No poder ser o contrrio! - O sr. Heywood respondeu com sinceridade
na voz, o que Aletha muito apreciou.
Era consolador, ela pensou, ter quem a admirasse. Ao mesmo tempo veio-lhe
 mente que, pertencendo  famlia Ling, na qual no decorrer dos sculos
as mulheres sempre foram aclamadas por sua beleza, ela prpria poderia
no fazer jus  reputao granjeada por tais beldades.
Os quadros que enfeitavam as paredes da galeria Van Dyck, ali em Ling,
atestavam que, atravs das geraes, a beleza de traos era o que
caracterizava aquela famlia.
Grandes pintores haviam retratado os ancestrais do duque de Buclington.
Alm das inmeras obras da galeria, havia ao lado das escadas e nos
sales telas pintadas por grandes mestres, como Gainsborough, sir Joshua
Reynolds e Romeney.
Aletha admirava esses retratos e admitia que se parecia com aquelas
beldades, contudo costumava dizer a si mesma: "Sem dvida estou numa
competio difcil e at desigual! "
Atualmente Aletha tinha mais confiana em si mesma e no ignorava que os
elogios que lhe dirigiam eram sinceros. Dois ou trs anos atrs, a
situao era diferente. Ela passava ento pelo que se costumava chamar de
"idade feia e sem graa". Quantas vezes ouvira os amigos do pai dizerem:
- Oh, esta  a Aletha? Imaginei que ela fosse parecida com a me! A
duquesa foi uma das mulheres mais lindas que j tive a felicidade de
conhecer!
Naturalmente os amigos do duque no desejavam ser indelicados. Porm
Aletha compreendia a insinuao e no se cansava de pedir a Deus que lhe
desse um pouco mais de beleza quando ficasse uma mocinha.
Ento, como por milagre, suas preces foram atendidas. Ela passou a ver
refletida no espelho uma imagem muito bonita e cada vez mais se dava
conta de que se parecia com a me e com as outras lindas duquesas de
Ling.
Todavia, em sua modstia, no se julgava igualmente linda, apenas
parecida.
Mais tarde, nessa noite, tendo o sr. Heywood deixado Ling, Aletha ficou a
ss com o pai e comentou:
- O sr. Heywood pareceu sincero ao dizer que pareo com mame. Espero que
quando for para Londres as pessoas me admirem.
- Voc quer dizer "os homens", no ? Asseguro-lhe que voc j  uma
linda mocinha e ficar ainda mais encantadora quando ficar um pouco mais
velha, minha querida.
- Acha... mesmo, papai?
- Sim, e j estou observando os jovens cavalheiros, pois tenciono
escolher um excelente marido para voc.
A filha olhou atnita para o duque e disse, pouco depois, com certa
dificuldade:
- Um... marido?
- Naturalmente. Se sua me estivesse viva, ela tambm estaria ansiosa,
pensando em ver nossa nica filha fazer um casamento brilhante com um
cavalheiro, o qual teramos orgulho de receber como genro.
Incapaz de falar, Aletha permaneceu em silncio por um instante. Depois
conseguiu articular umas poucas palavras numa voz sumida:
- Creio, papai, que eu mesma devo encontrar... meu marido.
- Isto  impossvel! - o pai exclamou, sacudindo a cabea.
- Mas... por qu?
- Porque nas famlias reais e nobres como a nossa os casamentos so
sempre arranjados. Fazemos isso com discrio, porm de modo definitivo!
- O duque fitou Aletha com suavidade no olhar. - Voc  minha nica
filha, por isso serei muito exigente na escolha de seu futuro marido.
Estou decidido a ter como genro um aristocrata que, para diz-lo com
poucas palavras, esteja a sua altura.
- Mas, papai, suponha que eu... no o ame?
- O amor geralmente nasce depois do casamento. Prometo-lhe, minha querida
filha, que encontrarei um homem por quem voc se apaixonar.
- Mas suponha que ele no me ame e que me queira apenas porque... sou sua
filha.
O duque fez um pequeno gesto com a mo.
- Sem dvida ele a amar. Um aristocrata s se casar se estiver certo de
vir a apaixonar-se pela mulher que ir desposar. Eu me apaixonei por sua
me.  comum um aristocrata aceitar o que os franceses chamam de
"casamento por convenincia" por fazer questo de que sangue azul se una
a sangue azul. Uma linda noiva  sempre muito desejada para dar
continuidade a uma linhagem.
- A meu ver, isto soa to frio e sem romantismo, papai!
- Aletha protestou depois de ter ficado pensativa por um momento. - At
parece que no se trata de um casamento, mas da escolha de uma mercadoria
no balco de uma loja.
- No  bem assim - o duque retrucou de modo incisivo.
- Prometo-lhe que no a forarei a se casar com um cavalheiro de quem no
goste.
- Tudo o que desejo  amar algum que me ame pelo que sou e no por ser
sua filha.
- Muitos homens a amaro por voc mesma. Porm, quando a questo for
casamento, acredito que eu estarei muito mais capacitado do que voc, com
to pouca idade, a escolher o homem certo para ser seu marido, de modo a
assegurar sua felicidade, filha adorada.
- Por que diz isso?
- Porque uma jovem ingnua pode muito bem se deixar enganar por um homem
que tenha "lbia", como se diz comumente. Minha filha, nem sempre um
homem controlado, bem-educado e bem-nascido tem o dom de saber usar
palavras doces e romnticas!
- Em resumo, o que est querendo dizer  que eu sou capaz de me deixar
impressionar pelas palavras de um homem, ainda que no sejam sinceras -
Aletha concluiu.
- H homens loquazes, desenvoltos e capazes de se mostrarem encantadores
quando a questo  dinheiro e ttulo de nobreza - o duque observou com
ceticismo.
Aletha permaneceu em silncio; no ignorava que qualquer homem da
Inglaterra iria considerar um privilgio e uma honra ser genro do duque
de Buclington. E ela era sua nica filha.
Mesmo tendo um irmo, o qual no momento se encontrava na ndia como
ajudante-de-ordens do vice-rei, que herdaria a
maior parte da fortuna paterna bem como o ttulo de nobreza, Aletha
possua uma grande fortuna, herana materna, e teria ainda participao
no dinheiro do pai.
Ela seria tola demais se no compreendesse que uma jovem como ela poderia
ser vtima de caadores de dotes que se vangloriariam do grande triunfo
de t-la conquistado. Como ela dissera, se isso acontecesse, teria sido
escolhida no por si prpria, mas pelo dinheiro e ttulo do pai.
- At o momento no tivemos a oportunidade de tocarmos nesse assunto,
filha, mas eu pretendia falar sobre isso com voc antes de irmos para
Londres para a temporada. Minha querida, tudo o que voc tem a fazer 
ser sensata e deixar este assunto aos meus cuidados. Desde criana voc
tem confiado em seu pai e no posso acreditar que agora no far o mesmo.
- Amo-o muito papai e, claro, confio em voc, mas quero me apaixonar como
voc e mame se apaixonaram.
- Um amor como o nosso s acontece uma vez em um milho de anos! Assim
que entrei no salo e vi sua me, soube que eu havia encontrado a jovem,
fosse ela quem fosse, viesse de onde viesse, que haveria de ser minha
esposa!
- Mame tambm me dizia que ao conhec-lo soube que havia encontrado o
homem de seus sonhos.
- Fomos felizes, querida, imensamente felizes.
Aletha notou a nota dolorida na voz do pai; era sempre assim toda vez que
ele falava na esposa.
-  o que eu tambm quero encontrar, papai. Como mame, desejo encontrar
o... prncipe dos meus sonhos!
- Nesse caso reze para que isso acontea.
Embora o duque falasse com sinceridade, Aletha sabia que o pai duvidava
que fosse possvel existir um amor to pleno quanto o dele e da esposa.
Como ele dissera, isso s ocorria uma vez em um milho de anos.
- J que partirei amanh bem cedo, creio que devo ir para a cama - o
duque disse, erguedo-se. - No se preocupe com nada, minha querida.
Quando voltar, conversaremos sobre este assunto antes de irmos para
Londres. - Ele abraou a filha. - Faa seus passeios a cavalo e procure
distrair-se. Prometo
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que mais tarde vou recompens-la destas duas semanas entediantes.
- vou sentir muita saudade, papai.
- Tambm sentirei saudade de voc, minha doura.
O duque e a filha subiram a escada abraados.  porta do quarto de
Aletha, ele beijou-a afetuosamente e seguiu pelo corredor em direo aos
prprios aposentos, pensando nos jovens aristocratas que vira
recentemente na corte.
No deixava de ser uma tarefa difcil escolher um cavalheiro que lhe
parecesse digno de ser marido de sua filha. Em cada um deles sempre havia
um ou mais defeitos.
Sua percepo lhe dizia que, se um daqueles nobres viesse a se casar com
Aletha, no lhe permaneceria fiel depois do primeiro ano de casamento.
"Hei de encontrar algum", o duque pensou, decidido, ao entrar sob as
cobertas.
J trocada para dormir, Aletha afastou as cortinas e ficou  janela. O
cu estava estrelado e a lua cheia permitia uma boa visibilidade.
A noite estava fria; os raios do luar tornavam o lago um espelho de
prata. Sob os carvalhos vetustos, os narcisos que acabavam de desabrochar
formavam um verdadeiro tapete.
Normalmente Aletha se emocionava com a beleza de Ling e tudo que dizia
respeito quela casa e aos que ali viviam. Porm naquele instante ela
mostrava-se alheia ao encanto da noite. Um nico pensamento a
atormentava: teria de partir, deixando tudo o que amava e que lhe era
familiar, para ir morar com um estranho numa casa tambm estranha.
Teria criados estranhos e no aqueles que a cercavam e que vinham
cuidando dela desde que nascera. Teria parentes estranhos que a
criticariam e desaprovariam o que quer que ela fizesse. -
Seria difcil encontrar um marido que cavalgasse to bem quanto seu pai
ou como ela prpria.
"No poderei suportar!", ela pensou. "Desejo amar e ser amada. S o amor
far at mesmo uma casinha parecer maravilhosa... e ele estar l."
Seu pensamento voltou-se para a imperatriz Elizabeth. Ela era amada por
tantos homens devido a sua beleza e talvez tambm retribusse esse amor.
Mas Aletha desejava para si mesma algo diferente.
Desejava amar, viver uma unio feliz, to feliz que o mundo fora do seu
lar no importasse. Um casamento no qual o que contava era o amor entre
ela e seu marido.
Erguendo a cabea, ela fitou a lua.
- Ser que estou desejando algo impossvel? - Aletha perguntou. - Ser
que devo me contentar com menos?
Vir a amar algum depois do matrimnio jamais seria o mesmo que se casar
com o homem de seus sonhos.
Como seria amar apaixonadamente? Devia ser muito mais emocionante do que
possuir e cavalgar puros-sangues extraordinrios, velozes e indmitos.
Fora uma pena que o assunto que estivera conversando com o pai surgira
antes de ele partir para a Dinamarca. Seria to bom se pudesse continuar
falando com ele; tentaria faz-lo compreender que ela precisava tentar
tornar seu sonho uma realidade, ainda que isso parecesse impossvel.
Subitamente Aletha teve um terrvel pressentimento. Poderia acontecer que
viesse a ser casada com um estranho com quem nada tinha em comum, antes
mesmo de se dar conta do que estava acontecendo.
- No posso suportar ao menos esta simples ideia! - ela disse em voz
alta.
Ocorreu-lhe que, se algo semelhante lhe acontecesse, s lhe restaria a
alternativa de fugir.
com um estremecimento, veio-lhe  mente que nessa viagem para a Dinamarca
talvez o pai encontrasse um marido para ela. Ento se veria ao lado de um
estrangeiro, cuja lngua e costumes eram diferentes dos dela e de quem
nada sabia.
Dominada pelo pnico, Aletha sentiu-se como se estivesse navegando num
mar calmo que, de repente, se tornara tempestuoso.
"Tenho de fugir!", pensou.
O bom senso, porm, falou mais alto e ela reconheceu que,
sendo o pai um homem compreensivo, iria ouvi-la se ela lhe explicasse o
que estava sentindo.
Seu primeiro impulso foi correr at os aposentos do duque; exporia seus
receios, e ele a entenderia como costumava fazer quando Aletha ainda era
criana e o procurava, assustada, com medo do escuro.
Pensando mais no pai do que em si mesma, ela decidiu que seria egosmo de
sua parte ir aborrec-lo, uma vez que ele iria partir logo pela manh;
teria que atravessar o mar do Norte, a caminho da Dinamarca.
"Por que papai tem que fazer esta viagem exatamente agora?", Aletha
perguntou a si mesma, zangada.
No fosse o pedido da rainha, no dia seguinte o duque e a filha estariam
partindo para a Hungria.
Seria maravilhoso ambos examinarem belos cavalos hngaros! Os dois
cavalgariam lado a lado num pas que ela no conhecia e que a imperatriz
Elizabeth tanto amava.
"Se papai e eu estivssemos na Hungria, eu me sentiria mais  vontade
para falar com ele sobre o amor", Aletha pensou.
Infelizmente seria o sr. Heywood e no eles quem iria fazer a viagem at
a Hungria. O administrador, sim, teria o prazer de selecionar os mais
magnficos cavalos que encontrasse.
Era desesperador pensar que tudo havia sado errado; ela viase privada do
grande prazer que seria ajudar o pai a escolher os animais que desejariam
trazer para a Inglaterra.
Frustrada, Aletha afastou-se da janela. De nada adiantava ficar desejando
algo to inatingvel como a lua. Teria que se conformar; ficaria em casa,
cheia de preocupaes quanto ao seu futuro.
De nada adiantava ter a companhia da prima Jane em casa; nunca iria se
abrir com ela.
Impulsivamente Aletha decidiu voltar para a janela e olhar para as
estrelas. Estas a inspiraram a dirigir um pedido para o cu:
- Desejo tanto encontrar o amor... permita-me encontrar um homem a quem
eu ame verdadeiramente... e que me ame tambm.
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Suas palavras foram quase uma prece, e Aletha sentiu que elas subiam para
os paramos etreos.
Quando ia correr as cortinas deixando l fora a noite com sua beleza, ela
teve uma ideia. O que lhe ocorreu era to extraordinrio, to incrvel
que, por um momento, nem se moveu.
Ento, algo forte, desafiador e incitante surgiu como uma chama dentro de
seu peito, para em seguida se infiltrar por todo o seu corpo e seu
crebro.
Erguendo a cabea, Aletha fitou a lua, como se fosse desse astro que lhe
tivesse surgido a ideia, e com voz suave afirmou:
- Farei isso... mas voc ter que me ajudar!
25

CAPTULO II

Aletha teve muito tempo para executar seu plano. No acostumada a fazer
sua bagagem, esta tarefa tomou-lhe quase trs horas.
Restava-lhe conseguir dinheiro para a viagem que tinha em mente. Na bolsa
possua apenas uma pequena quantia, reservada para esprtulas na igreja
ou para gastos ocasionais.
Porm iria precisar de mais dinheiro, e a soluo seria empenhar uma das
jias que havia herdado da me. Desde que deixara o colgio, Aletha
tivera permisso de usar alguns broches e braceletes que guardava
consigo.
As tiaras, colares e brincos ficavam no cofre. Tais peas ela no poderia
obter sem alarmar o mordomo. Este iria achar muito estranho ela querer as
jias no meio da noite.
Examinando as peas que tinha em seu poder, Aletha foi colocando-as na
bolsa. Durante algum tempo ela ficou admirando um valioso broche de
diamantes purssimos, em forma de meia-lua, que certamente lhe renderia
bastante dinheiro.
A tempo lembrou-se de que precisaria do passaporte. Isso no seria
problema, porque possua seu prprio passaporte. Logo aps a morte da
me, ela viajara para a Frana com o pai, que achara uma ideia excelente
ambos mudarem um pouco de ambiente.
O duque levou a filha para passar algum tempo com seu amigo, o comte De
Soisson, um aristocrata, o qual, como ele, era grande criador de cavalos
de corridas.
O duque fizera questo de que a filha tivesse seu passaporte separado do
dele, uma vez que ele poderia ter que voltar para a Inglaterra a chamado
da rainha e deixaria a filha com a famlia do amigo.
Naquele momento Aletha pegou o passaporte em questo e
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uma carta assinada pelo marqus de Salisbury, ministro das relaes
exteriores. Isto bastaria para ela entrar na Hungria, pas para onde
pretendia viajar.
Quando estivesse em solo estrangeiro, usaria um nome falso. Afinal, s as
autoridades alfandegrias veriam seu passaporte.
com calma ela reviu seu plano. Sabia que o que pretendia fazer
contrariava as convenes sociais e iria deixar o duque furioso se viesse
a saber do ocorrido.
Ao mesmo tempo, se tudo corresse bem, ela estaria de volta antes do
regresso dele. Ento no havia por que o pai duvidar de que a filha no
estivera visitando uma de suas amigas.
Sua prima Jane havia chegado aquela tarde, s seis horas, e fora direto
para a cama, poupando a todos de uma conversa sobre banalidades ou, pior
ainda, sobre seus achaques.
Na verdade, foi a sade da prima que facilitou as coisas para Aletha.
Esta foi procurada pela criada particular de lady Jane que lhe comunicou:
- Receio, milady, que minha ama no esteja passando bem. Ela apanhou um
resfriado forte e para no contagiar ningum achou melhor recolher-se.
- Fez bem - Aletha respondeu. - Eu, pelo menos, no desejo ficar
resfriada no momento.
- Dentro de uns dois dias ela estar bem. Sua Senhoria gosta de ficar em
Ling.
Aletha suspirou aliviada. Poderia executar seu plano com maior
tranquilidade.
Assim que terminou de arrumar a bagagem, sentou-se e escreveu um bilhete
para a prima dizendo que, j que ela se achava doente, iria visitar
algumas amigas e se ausentaria por alguns dias.
Aletha tambm deixou uma carta para o pai, caso ele regressasse da
Dinamarca e no a encontrasse em casa. Nesta carta ela lhe contava toda a
verdade. Seu grande amor pelo pai a impediu de mentir.
Mesmo que o duque se zangasse, certamente ficaria mais calmo quando visse
a filha de volta.
Olhando no relgio, ela viu que ainda poderia descansar um
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pouco. Partiria logo aps a sada do pai; este deixaria Ling s seis
horas, com o sr. Heywood.
Durante o jantar, ambos haviam combinado que iriam at a estao, a
quatro milhas de distncia, e tomariam o primeiro trem para chegarem a
Londres a tempo de o duque poder embarcar no navio para Copenhague, que
zarparia pouco depois do meio-dia.
Se o duque perdesse o navio, s poderia prosseguir viagem dali a dois
dias, o que transtornaria todo o seu programa na Dinamarca.
Era tamanha a ansiedade de Aletha que no conseguia dormir. A cada hora
acendia a vela para consultar o relgio. Finalmente, s cinco horas,
ouviu os passos do pai no corredor, seguidos dos do criado particular e
de outros criados carregando a bagagem.
O duque havia insistido com a filha para no se levantar a fim de se
despedir dele, alegando:
- Quero que durma at mais tarde, como de costume, minha querida.
Reconheo que se me levanto cedo demais meu humor no  dos melhores e
no quero que guarde m impresso de mim.
- Eu jamais pensarei em voc de outro modo que no seja com amor - Aletha
afirmara. - Voc  o melhor e mais maravilhoso pai do mundo!
O pai a beijara.
- Voc  uma tima garota e orgulho-me de t-la como filha. Heywood
estava certo ao dizer que voc vai ser a mais bela dos bailes aos quais
comparecer, em Londres.
- Espero que sim, papai - ela dissera.
Naquele momento em que o duque estava partindo, Aletha ps-se a imaginar
se ele iria zangar-se demais ao descobrir o que a filha havia feito.
Talvez ele at a impedisse de ter o seu dbut.
Contudo, se isso acontecesse, seria um escndalo. O mais provvel era que
o duque faria questo de manter em segredo a "travessura" da filha, to
contrria s convenes sociais.
"No preciso me preocupar", ela pensou. "Voltarei antes
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de papai e tenho certeza de que poderei fazer o sr. Heywood prometer
manter minha viagem em segredo."
Somente quando teve certeza de que o pai e o administrador haviam
partido, Aletha levantou-se e se vestiu. Passavam quinze minutos das seis
quando ela desceu a escada usando um costume de viagem e um chapu ao
qual havia prendido um pequeno vu que havia pertencido  duquesa.
Somente mulheres casadas usam vu, por isso ela achou que aquele era um
bom disfarce. Alm disso, ela aparentaria mais idade, e ningum
estranharia o fato de uma senhora estar viajando sozinha.
Apenas quando j estivesse fora da Inglaterra, iria procurar o sr.
Heywood; por certo ambos fariam a travessia do canal no mesmo vapor e
tomariam o mesmo trem para Budapeste.
Aletha no ignorava que correria riscos. Era a primeira vez que viajava
desacompanhada. Quando voltara da Frana, sem o pai, viera com a criada
particular, uma senhora j idosa, alm do acompanhante de viagem.
Tudo havia sido arranjado para ela ter tranquilidade, proteo e o maior
conforto, desde que deixara o castelo do comde at a chegada em Ling.
Decidida, Aletha disse a si mesma que por maiores que fossem as
dificuldades haveria de super-las; nada a impediria de chegar  Hungria.
No hall estavam os criados da noite ainda a postos e outros dois criados
que haviam cuidado da bagagem do duque. Ao ver Aletha, todos se mostraram
surpresos.
Ela pediu a dois deles que subissem para buscar seus bas e ao terceiro
que fosse s cocheiras providenciar-lhe uma carruagem para lev-la 
estao.
- Ontem estvamos todos to preocupados com a partida de Sua Alteza - ela
explicou - que me esqueci de comunicar aos serviais que eu tambm iria
viajar para ver uns amigos.
A carruagem foi trazida  frente da casa com surpreendente rapidez. O
duque sempre se irritava se tivesse que esperar quando desejava ir a
algum lugar. Por esse motivo, os cavalarios eram bem treinados e capazes
de arrear um cavalo ou atrelar uma parelha em tempo recorde.
A bagagem de Aletha foi empilhada e amarrada na carruagem. Ela fizera
questo de levar consigo seus lindos vestidos e chapus novos, bem como
os melhores trajes e botas de montaria, pois estava determinada a trajar-
se com elegncia. Sempre haveria a oportunidade de conhecer alguns
interessantes aristocratas hngaros.
O criado que abriu a porta para Aletha entrar na carruagem perguntou-lhe:
- Vai viajar sozinha, milady?
- Trata-se de uma viagem curta - ela explicou com um sorriso. - Achei que
no valia a pena levar uma criada comigo.
Fechada a porta, a carruagem partiu.
Na estao, Aletha esperou apenas quinze minutos pela chegada do trem
para Londres. Um carregador, seu conhecido, apressou-se em conseguir para
ela um compartimento vazio e colocou na porta um rtulo com a inscrio
"reservado".
O trem ps-se em movimento, para satisfao de Aletha, que disse a si
mesma ter sido o primeiro obstculo ultrapassado.
Enquanto o trem avanava passando por campos cultivados de onde surgiam
os primeiros brotos, por bosques cujas rvores comeavam a se cobrir de
folhagem, Aletha repassava seu plano mentalmente. Teria de ser muito
cuidadosa ao chegar em Londres.
No poderia cometer um engano sequer; era de vital importncia tomar o
vapor em Tilbury  uma hora para fazer a travessia do Canal da Mancha.
Em Londres um carregador foi buscar para ela uma carruagem de aluguel. Ao
entrar no veculo, Aletha pediu ao homem que dissesse ao cocheiro para
lev-la a uma casa de penhores.
- Diga-lhe que v  loja mais prxima daqui, porque no posso me demorar.
Pretendo tomar o vapor, em Tilbury,  uma hora.
O carregador mostrou-se surpreso e perguntou com certa familiaridade:
- Veio sem dinheiro, no?
- Sim. Distrada como sou, deixei meu dinheiro sobre o toucador. Agora
terei que empenhar meu broche se no quiser perder a viagem!
- Procure ser mais cuidadosa no futuro, madame!
- Sem dvida  o que farei.
O carregador foi falar com o cocheiro, que, chicoteando o cavalo, ps a
carruagem em movimento.
Ao chegarem  loja de penhores, Aletha viu aliviada que a mesma tinha uma
boa aparncia e pela vitrine notava-se que se tratava de uma loja fina.
No havia muito movimento na rua. Aletha desceu da carruagem sentindo-se
nervosa. Felizmente no havia fregus algum dentro da loja. Um velho de
nariz grande e adunco achava-se atrs de um balco.
J com o broche na mo ela se aproximou.
- bom dia. Estou interessada em empenhar este broche porque,
infelizmente, sa sem dinheiro e tenho urgncia em ir para Ostende.
- Quando estar de volta? - o penhorista perguntou com certa
agressividade na voz.
- Dentro de dez dias - Aletha falou com firmeza. Asseguro-lhe que no
quero perder meu lindo broche, porm no posso viajar sem dinheiro.
Tomando a jia nas mos, o homem passou a examin-la cuidadosamente.
Depois disse:
- Posso lhe dar setenta libras pelo broche e quando vier resgat-lo ter
de me pagar cem libras.
Aletha no ignorava que os diamantes que haviam pertencido a sua me
valiam muito mais; era evidente que estava sendo lesada, porm no tinha
tempo para ficar discutindo.
- Aceito o que me oferece, desde que se comprometa a no vender essa jia
dentro de dez dias. Trata-se de um broche que pertenceu a minha me e no
desejo perd-lo.
O homem fitou-a com olhar penetrante, como a investigar se a freguesa
dizia ou no a verdade. Ento, subitamente, sorriu.
- Acredito em voc - ele disse -, mas da prxima vez no seja to
descuidada! Uma lady da sua idade no deve recorrer a donos de lojas de
penhores.
- Nunca fiz isso antes. Muito obrigada por me ajudar; asseguro-lhe que 
muito importante que eu alcance o vapor que zarpar  uma hora.
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O velho abriu uma gaveta que estava cheia de dinheiro, contou
cuidadosamente setenta libras e entregou-as a Aletha, recomendando:
- Se est viajando desacompanhada, tome cuidado e segure firme essa
bolsa.
- o tom do penhorista era paternal. - H punguistas por toda parte; se se
descuidar, ficar sem seu dinheiro.
- Terei muito cuidado.
- Tenho ouvido dizer que nos navios principalmente existem muitos
ladres. So malandros que se no tiram o dinheiro de uma bela garota no
jogo de cartas tiram-no com beijos!
O modo como ele falou fez Aletha estremecer.
Recebendo um recibo com o qual poderia resgatar o broche, ela guardou-o
cuidadosamente na bolsa e colocou-a debaixo do brao. Ento estendeu a
mo.
- Muito obrigada. No me esquecerei de seus conselhos.
- Deve segui-los mesmo.
Ela sorriu para o velho e deixou a loja. Na carruagem disse a si mesma
que o penhorista tinha toda razo. Poderia ter muitos problemas at se
ver sob a proteo do sr. Heywood. Contudo s pretendia revelar-se a ele
depois de alcanar Ostende e estar no trem expresso que seguiria para
Viena.
Na vspera, Aletha ouvira o sr. Heywood conversando com o duque sobre as
etapas de sua viagem, porm no prestara muita ateno no que o
administrador dissera, uma vez que at ento no cogitava fazer algo to
louco como segui-lo para mais tarde juntar-se a ele.
Quando a ideia lhe ocorreu, no entanto, Aletha soube que tinha de pr seu
plano em prtica. No suportaria ficar em casa ouvindo sua prima Jane
lamuriando-se.
J que o duque no pudera ir para a Hungria comprar os cavalos que por
certo encantariam a imperatriz, o sr. Heywood ficara encarregado dessa
tarefa. Ocorrera ento a Aletha que no havia nada de mais em seguir o
administrador.
To logo essa ideia se insinuou em sua mente Aletha passou a elaborar
cuidadosamente um plano de ao, em que tudo teria que dar certo; no
poderia se arriscar a ser mandada de vol
ta pelo sr. Heywood como se fosse parte da bagagem que ele no mais
desejasse.
Para isso no acontecer, ele s teria conhecimento da presena de Aletha
quando ambos estivessem viajando no trem para a ustria.
Ao chegar s docas, verificou que o vapor j estava atracado. Ainda no
era uma hora e vrias pessoas embarcavam pela prancha instalada no
costado. Aletha no viu sinal do sr. Heywood e ficou contente, achando
que ele j estaria a bordo.
Quando lhe ocorreu que talvez no houvesse acomodao para ela, entrou em
pnico. Lembrando-se das palavras do homem da loja de penhores, ela
desceu sobre o rosto o veuzinho do chapu e tirou da bolsa os culos
escuros que o duque havia usado havia algum tempo quando visitara a
Sua, a fim de proteger os olhos contra o brilho intenso da neve.
Felizmente Aletha lembrara-se desses culos e fora apanhlos antes de
sair, na gaveta de uma cmoda onde o duque guardava correias de ces e
luvas de cavalgar.
com os culos escuros, Aletha sentiu-se protegida contra o mundo. Se o
prprio sr. Heywood a visse, provavelmente no a reconheceria. At o
cocheiro da carruagem de aluguel mostrouse surpreso ao v-la descer do
veculo.
com desembarao, Aletha chamou um carregador para cuidar de sua bagagem e
subiu a bordo.
Tendo viajado com o pai, ela no ignorava que, como no fizera reserva,
teria de ir ao gabinete do comissrio.
Ali encontrou vrias pessoas j esperando para serem atendidas.
Finalmente chegou sua vez e Aletha conseguiu, aliviada, uma cabine. 
que, como as cabines eram caras, a maioria dos passageiros preferia no
gastar dinheiro extra com tal conforto.
Um camareiro encarregou-se de levar seus bas para a cabine que lhe fora
destinada.
Assim que se viu sozinha, Aletha disse a si mesma, tranquila, que estaria
em segurana at chegar a Ostende.
No era a primeira vez que ela efetuava a travessia do canal e no sentiu
enjoo, apesar de o mar mostrar-se encapelado.
J distante da costa, Aletha pensou satisfeita que vencera mais um
obstculo, e em grande estilo.
"Reconheo que at aqui fui bem esperta", ela pensou. "Agora devo evitar
que o sr. Heywood me veja em Ostende."
Sabendo que o sr. Heywood provavelmente permaneceria no convs para
apreciar a brisa do mar, Aletha fez questo de ficar trancada, embora
detestasse isso.
Todas as vezes que fizera a travessia de Dover a Calais com o pai, jamais
se deixara ficar encerrada, ainda que estivesse ocupando a melhor cabine
do vapor.
Mas agora era diferente; precisava manter-se escondida. A viagem no foi
longa, e um camareiro veio avis-la de que haviam chegado e que ele mesmo
cuidaria da bagagem dela.
Mantendo a cabea baixa, ela desembarcou. No foi preciso andar muito
para alcanar a plataforma onde o trem para Viena j estava esperando.
Antes de embarcar, ela teve de ir ao guich comprar sua passagem. Sem ter
visto o sr. Heywood, Aletha deduziu que, por uma bno divina, ele j
devia ter ocupado seu compartimento reservado no trem.
A passagem para uma cabine na primeira classe foi muito cara; porm,
ainda sobrara-lhe dinheiro suficiente para fazer a viagem com conforto.
Quanto  volta, o administrador certamente iria se encarregar das
despesas de ambos. Em todo caso, se algo desse errado, ela teria que
cuidar de si mesma. Portanto seria prudente reservar algum dinheiro. No
poderia haver nada de mais terrvel do que se encontrar em um pas
estrangeiro desprecavida de recursos monetrios.
O carregador que Aletha contratara descobriu para ela em que vago ficava
sua cabine e acomodou cuidadosamente toda a bagagem.
Sabendo falar francs fluentemente, ela perguntou ao homem a que horas o
trem iria fazer a parada para o jantar. Era comum os passageiros descerem
para fazer as refeies no restaurante de uma estao.
Gentilmente o carregador deu todas as informaes de que Aletha
precisava. Notou, porm, que o homem no escondia
sua admirao por ela, apesar do vu e dos culos escuros, o que a deixou
apreensiva.
"Devo ter cuidado", ela pensou.
De forma alguma desejava ver-se envolvida com algum dos passageiros, a
no ser com o sr. Heywood.
Dez minutos depois, o trem partiu de Ostende, e Aletha pensou, exultante,
que vencera o terceiro obstculo. J no corria perigo de ser mandada
para casa humilhada.
A prxima dificuldade seria encontrar o sr. Heywood. Pelos jornais, ela
sabia que os novos trens eram compostos de vages com corredores e que
comunicavam-se entre si. Isto queria dizer que os passageiros podiam
mover-se de um compartimento e mesmo de um vago para outro.
Lembrava-se de ter ouvido o pai comentar que aquela inovao, apesar de
prtica, tirava a privacidade e a segurana dos passageiros.
- Pode acontecer - o duque dissera - que os homens batam no compartimento
de senhoras e at entrem ali, o que no mnimo as assustaria. Isto sem
contar o quanto facilita a ao de ladres. Um passageiro pode ser
roubado durante o sono, por exemplo.
Durante essa conversa, Aletha havia dito ao pai:
- Os jornais noticiam que os novos trens que percorrem grandes distncias
tero um carro-restaurante e que os passageiros de qualquer vago tero
acesso ao mesmo caminhando pelos corredores.
- Na minha opinio, no ser nada agradvel, principalmente para as
mulheres, fazer uma refeio com o trem em movimento, balanando e
sacudindo. - Fora a resposta do duque.
Todavia, Aletha pensou, na situao em que se encontrava, seria mais
fcil encontrar o sr. Heywood se aquele trem no qual viajava j fosse do
modelo novo, com corredores.
J que no era assim, ela teria que esperar at a parada na estao em
que os passageiros desceriam para fazer sua refeio no restaurante
ferrovirio.
Tirando o chapu, acomodou-se confortavelmente na cabine onde teria
absoluta privacidade. Seria muito desagradvel se tivesse que viajar com
outras pessoas.
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Ela tambm havia lido nos jornais sobre a viagem que a rainha Victoria fizera para a Frana. Seu vago particular era composto de uma sala de estar, um quarto e
o compartimento para bagagem onde havia um sof no qual sua aia dormia.
Ao viajar para a Dinamarca, o duque de Buclington tambm estava tendo a sua disposio um vago particular semelhante ao de Sua Majestade. Pensando nisso, Aletha
no deixou de sentir uma ponta de inveja.
"Contudo, estou fazendo o que quero, e vivendo esta aventura terei a oportunidade de comprar com o sr. Heywood cavalos fantsticos que encantaro a imperatriz quando
ela se hospedar em Ling", ela consolou-se.
Interessada na paisagem, ficou algum tempo  janela. S quando o trem parou para que os passageiros fizessem sua refeio, ela se deu conta de que j eram seis horas.
Como ia descer, achou prudente colocar, alm do chapu com o veuzinho, os culos escuros. No podia correr riscos.
Olhando-se ao espelho, disse a si mesma que nem seu prprio pai, se a visse, seria capaz de reconhec-la facilmente.
Na plataforma enfumaada, um grande nmero de pessoas, umas esperando viajantes que chegavam, outras querendo embarcar, se mesclava aos carrinhos com bagagem, aos
carregadores e aos funcionrios do correio transportando malas postais.
Depois de esperar uns poucos minutos, Aletha deixou sua cabine, tendo recomendado ao funcionrio encarregado daquele vago que ficasse atento a sua bagagem enquanto
ela ia jantar.
Tendo o homem lhe assegurado que ficasse tranquila, ela agradeceu-lhe em seu perfeito francs parisiense e dirigiu-se para o restaurante.
Entrando no amplo salo, notou que todas as mesas j estavam ocupadas, porm no havia ali nem sinal do sr. Heywood, o que a deixou desalentada, achando que ele
devia ter voltado para o trem sem ter jantado.
Um homem que se achava sentado  mesa prxima da porta, vendo Aletha olhando para o salo lotado, dirigiu-se a ela em francs:
- H um lugar aqui, madame.
com um rpido olhar Aletha notou que ao lado do lugar vago
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estava o homem que havia falado com ela e  frente dele viu um casal de velhos que sups serem austracos.
Embora relutante, ela sentou-se na cadeira vaga, ansiosa por ver logo o sr. Heywood.
-  sempre difcil acharmos lugar nestes restaurantes ferrovirios, a menos que desamos do trem mal ele acabe de parar - observou o homem que oferecera a Aletha
a cadeira ao seu lado.
- Achei que num grande restaurante haveria lugar suficiente para todos - ela respondeu num tom frio.
Pelo modo como o estranho olhava para ela e sorria, deu-se conta de que ele no se deixara enganar pelo disfarce que usava.
No entanto, j que o francs estava sendo gentil, ela no tinha motivos para ser indelicada. Ento aceitou que ele sugerisse alguns dos pratos do cardpio. Certamente,
em questo de comida, ningum melhor do que um francs para fazer sugestes.
Quanto ao vinho que ele lhe ofereceu, ela recusou.
- No obrigada. - Seu tom foi firme.
- Est cometendo um engano - disse ele. - Deve saber que em lugares como este ser perigoso tomar gua. - O francs sorriu para ela. - Este vinho vem de uma vincola
famosa e  excelente!
Achando que seria tolice recusar, Aletha aceitou um copo de bebida.
Em poucos minutos ambos foram servidos. O casal de velhos, tendo acabado de comer e de tomar dois grandes canecos de cerveja, voltou para o trem.
- Agora podemos conversar mais  vontade - disse o francs. - Fale-me sobre voc, mademoiselle. Vejo que apesar de seus horrveis culos escuros voc  uma garota
muito bonita.
Aletha retesou-se. Ia responder que no era uma mademoiselle quando percebeu que no usava aliana.
Havia pensado em todos os detalhes, porm nem cogitara de colocar no dedo uma aliana. Agora, tendo tirado as luvas para comer, ao francs no passara despercebido
seu dedo anular esquerdo desprovido do smbolo do casamento.
No tendo obtido resposta, o francs inclinou-se e falou mais Perto de sua interlocutora:
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- Fale-me sobre voc. Devo dizer-lhe que desde que a vi achei-a fascinante e, ao mesmo tempo, despertou-me a curiosidade.
- Sou apenas uma viajante, monsieur, e estou ansiosa por voltar a minha cabine.
- No h pressa. O trem no partir seno em vinte minutos. Gostaria de saber muitas coisas a seu respeito e tambm deve me dizer o nmero de sua cabine.
O modo como o francs falou fez Aletha encar-lo indignada. Porm ele j estendera a mo e segurava a dela.
- No tenho uma cabine; infelizmente no consegui uma. Portanto, por que no me convida para passar a noite na sua?
Cada vez mais indignada, Aletha tentou puxar a mo que o francs segurava, porm ele agarrou-a com fora.
- Asseguro-lhe que passaremos momentos felizes juntos - ele murmurou num tom meloso -, e a viagem no ser entediante ou montona.
- A resposta  "no", monsieur! Definitivamente "no"!
- Aletha disse.
Apesar de ter sido sua inteno falar num tom firme que traduzisse toda a sua indignao, aos prprios ouvidos sua voz soou um tanto dbil, quase infantil e um pouco
assustada.
O francs apertou a mo dela.
- Passar momentos felizes comigo. No vejo a hora de ficarmos a ss para eu poder dizer-lhe o quanto voc  linda e como estou vibrando por t-la encontrado!
O tom determinado do francs deixou-a ainda mais assustada. Ocorreu-lhe que se voltasse imediatamente para o trem o francs a seguiria e talvez ela no conseguisse
evitar que ele entrasse  fora em sua cabine. Nesse caso ver-se-ia  merc dele.
Precisava pensar depressa em algo que a livrasse daquele homem atrevido. Veio-lhe  mente que poderia recorrer ao funcionrio que ficara encarregado de vigiar sua
bagagem.
Porm o francs com certeza faria tudo para impedi-la de recorrer a algum, ela concluiu com o corao batendo forte em seu peito, e o pnico dominando-a por completo.
O garom apresentou a conta, mas o francs no soltou a
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mo de Aletha e com a outra mo tirou do bolso duas cdulas, entregando-as ao funcionrio do restaurante.
- Quero pagar a minha refeio! - Aletha protestou.
- No permitirei que faa isso - o francs insistiu.
Ela fez mais uma tentativa para libertar a mo, inutilmente. O atrevido francs mantinha-a firmemente presa  sua.
Assim que recebeu o troco, ele guardou-o no bolso, levantou-se, esperou Aletha fazer o mesmo, sempre lhe segurando a mo.
Ela no se levantou e ficou olhando para o rosto impassvel do seu captor, realmente apavorada.
As pessoas estavam saindo do restaurante e se dirigindo para o trem. Aflita, Aletha percebia os minutos passando; teria que se levantar e ir tambm para sua cabine.
O francs puxou-lhe a mo para faz-la erguer-se e, no podendo mais resistir, ela ps-se de p.
Quando ambos j estavam perto da porta, Aletha viu de relance, vindo do fundo do restaurante, a pessoa que to ansiosamente procurava.
Teimosamente ficou parada e o francs teve de arrast-la como se estivesse lidando com uma mula empacada. Porm, como era grande o nmero de pessoas tambm querendo
sair, ele foi obrigado a parar, esperando diminuir aquele fluxo.
Notando que agora o sr. Heywood j estava bem perto, Aletha com um forte puxo libertou-se do francs, que ficou surpreso, sem entender bem o que havia acontecido.
com passos rpidos ela alcanou a plataforma. Empurrando algumas pessoas foi ao encontro do sr. Heywood.
- Ah, encontrei-o! Finalmente encontrei-o! - ela gritou. O sr. Heywood encarou-a na mais completa perplexidade; ento exclamou:
- Lady Aletha! O que est fazendo aqui?
- Tambm estou viajando neste trem - ela respondeu. Eu estava... procurando o senhor.
Antes que ela pudesse dar mais explicaes, o francs j se achava ao lado dela. Sem ter percebido que Aletha estivera falando com o sr. Heywood, o mau-carter segurou-lhe
firmemente o brao.
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- Vamos! - ele ordenou. - No adianta tentar fugir de mim novamente.
- Suma e me deixe em paz! - Aletha reagiu, cheia de coragem.
Tambm no era para menos; o francs no era um homem corpulento, ao contrrio do sr. Heywood, que era alto e forte.
Ela segurou o administrador pelo brao e, ativo como era, ele percebeu que algo errado estava acontecendo.
- Quem  este homem? - ele perguntou em ingls. - Ele a est importunando?
- Sim. Mande-o embora! Por favor... mande-o me deixar em paz!
No houve necessidade de o sr. Heywood dizer coisa alguma. O francs evidentemente compreendeu que havia sido derrotado e afastou-se abrindo caminho entre a multido,
logo desaparecendo de vista.
Aletha respirou aliviada.
- Fiquei to assustada... - ela murmurou num fio de voz.
- Voc est aqui sozinha? - o administrador perguntou, atnito. - No compreendo...
- Eu quis fazer esta viagem... j que papai no pde vir e mandou o senhor... pensei em segui-lo. No tive qualquer problema at que... esse francs comeou a conversar
comigo.
- Ora, lady Aletha! Devia estar louca quando decidiu fazer esta viagem sozinha! Est viajando numa cabine?
- Sim... consegui uma.
O administrador mantinha-se carrancudo e de fato parecia extremamente zangado.
Os dois foram caminhando, seguindo os ltimos passageiros que se apressavam para embarcar. Algumas das portas j se fechavam com rudo.
- Onde fica sua cabine? - o sr. Heywood perguntou. Aletha apenas indicou, e o administrador recomendou-lhe:
- V para l e no saia enquanto eu no vier procur-la. Agora no temos mais tempo. Na prxima parada virei v-la e ento desejo uma explicao completa do que
est acontecendo!
O sr. Heywood j ia afastar-se, porm voltou-se para dizer:
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- Creio que seu pai ficaria furioso se soubesse que est aqui, lady Aletha.
- Sei disso. Mas eu queria muito fazer esta viagem com o senhor para comprar os excelentes cavalos hngaros... para a imperatriz.
- Terei que pensar em um meio de mand-la de volta em segurana. Vou arranjar algum que possa proteg-la - o administrador disse com uma expresso sombria.
- No voltarei! - Aletha retrucou. - Ocorreu-me uma ideia fantstica e lhe direi do que se trata quando o senhor tiver tempo para me ouvir.
Notando que o administrador continuava carrancudo, ela achou que no era o momento de pedir-lhe que a ajudasse.
Ao chegar  cabine, ela viu ao lado da mesma o funcionrio que lhe prometera cuidar de sua bagagem. Ele estava esperando que ela entrasse para ento trancar a porta
do vago.
Aletha dirigiu-se ao sr. Heywood:
- No se preocupe. Estarei em segurana at a prxima parada, ento nos veremos.
Em vez de responder, o sr. Heywood foi falar com o funcionrio. Em seu francs fluente, porm com forte sotaque ingls, ele recomendou ao homem que no permitisse
que pessoa alguma se aproximasse daquela cabine.
Ele deu uma gorjeta to generosa ao funcionrio que este ficou espantado. Ento, sem voltar a falar com Aletha, dirigiu-se para o prprio compartimento.
Seguindo-o com o olhar, ela viu-o entrar no vago vizinho, o que no deixava de ser irnico. Havia procurado, tanto o administrador, e ele viajava to prximo a
ela.
- Boa noite, madame! - o funcionrio despediu-se e fechou a porta.
Sentando-se na cama que fora arrumada enquanto ela estivera no restaurante, Aletha mostrava-se apreensiva com a reao do sr. Heywood.
Naturalmente, ela disse a si mesma, s poderia esperar que ele ficasse zangado. Mas afinal, com zanga ou sem zanga, ele nada poderia fazer. Se voltasse com ela para
Ling, no comPraria os cavalos para o patro.
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S lhe restava a alternativa de lev-la consigo. Nesse caso ela veria
posto em prtica o plano que arquitetara to cuidadosamente.
Despindo-se, Aletha sentia-se feliz; tivera muita sorte de encontrar o
sr. Heywood exatamente quando havia precisado dele.
Jamais lhe passara pela cabea que um homem pudesse comportar-se de
maneira to odiosa. O malandro por certo estava tentando conseguir uma
cabine sem precisar pagar pela mesma.
Era at bem provvel que o mau-carter, alm de estar procurando conforto
e uma mulher bonita para divertir-se com ela, tambm fosse um ladro.
com horror, Aletha pensou que, se o francs entrasse em sua cabine, ele
levaria todo o dinheiro e as jias que ela trouxera consigo.
S depois de ter feito todas essas conjecturas ela compreendeu que o sr.
Heywood tivera mais do que motivo para mostrar se to zangado e
horrorizado ao saber da sua ideia louca de viajar sozinha.
"Apesar de tudo, estou aqui!", pensou triunfante. "Ser impossvel; o
sr. Heywood me mandar embora! "
J vestida com a camisola, Aletha entrou sob as cobertas.
O barulho contnuo das rodas acalmou-a e f-la adormecer.
S pela manh Aletha acordou.
Lembrando-se de que o trem faria uma parada para os passageiros tomarem o
desjejum, saltou da cama e ergueu a persiana.
Teria que se trocar depressa, pois o sr. Heywood logo viria busc-la.
Por um instante ela ficou olhando a paisagem atravs da vidraa. O trem
estava passando por uma regio muito bonita.
A distncia erguiam-se altas montanhas; viam-se tambm florestas e um rio
caudaloso cujas guas cintilavam ao sol da manh.
Aletha gostaria de saber onde estava exatamente e, o que era mais
importante, quando chegariam a Viena.
Afastando-se da janela, vestiu-se e, antes de colocar o chapu, removeu o
veuzinho que havia pregado no mesmo.
Tambm no quis mais saber dos culos escuros e colocouos em uma de suas  caixas.
Notando que o dia estava claro e o sol brilhante, ela no vestiu o casaco
pesado que usara no dia anterior. Indo at o canto onde se achava sua
bagagem, tirou de um dos bas um casaco curto enfeitado com pele.
Olhando-se ao espelho, achou-se muito elegante, embora no se visse de  corpo inteiro.
Seria timo se o sr. Heywood a admirasse assim que a visse e esquecesse  um pouco a zanga da noite anterior.
Aletha usava um vestido muito bem talhado, de acordo com a ltima moda,
tendo um drapeado na parte da frente da saia, o qual era puxado para trs
de modo a formar discretas anquinhas.
Ela no ignorava que qualquer mulher que a visse na estao reconheceria  que aqUele era um modelo exclusivo que s poderia ter vindo de Paris.
O trem no tardou a entrar vagarosamente na estao.
Esperou a vinda do sr. Heywood cheia de receios.
Era bem provvel que ele ainda estivesse zangado. Afinal, ela era filha
de um duque e no ficava bem agir daquela forma, considerada por todos
leviana e to contrria s convenes sociais.
Uma lady s poderia fazer uma viagem como aquela devidamente acompanhada
de uma chaperon, uma criada particular, alm,  claro, de um acompanhante  de viagem.
De fato, havia sido ousada. Mas estava valendo a pena!

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CAPTULO III

O ST. Heywood veio at a cabine de Aletha e levou-a ao restaurante. Ambos
caminharam em silncio.
S depois de ele ter pedido caf e dois pratos de peixe fresco, dirigiu-
se a ela:
- Agora, lady Aletha, quero saber por que est fazendo esta viagem. Quero
que me conte toda a verdade.
-  muito simples. No fosse a viagem de papai para a Dinamarca, ele
estaria fazendo esta viagem e no o senhor; ento eu o acompanharia. -
Ela sorriu para o administrador. - Porm eu no aceitei ficar sozinha em
casa, deixando de viver esta aventura que ser comprar e montar
magnficos cavalos na Hungria.
- Suponho que seu pai no tem a menor ideia do que voc est fazendo. - O
tom do sr. Heywood no era nada conciliador.
- No, claro que no! Tive o cuidado de esperar que vocs partissem.
Depois peguei o prximo trem para Londres e cheguei a Tilbury a tempo de
tomar o vapor.
O sr. Heywood comprimiu os lbios.
- No me procurou antes receando que eu a mandasse de volta para Ling,
no  mesmo?
- Claro. E agora peo-lhe que aceite esta situao e faa o melhor
possvel para nossa viagem ser bem-sucedida.
- Acredita realmente que eu possa fazer o que me pede? Havia uma
indisfarvel irritao na voz do administrador. Voc sabe muito bem que
precisa de uma chaperon, e s Deus sabe como iremos conseguir uma em
Viena ou em qualquer outro lugar!
- No h necessidade de uma chaperon - Aletha retorquiu calmamente.
O sr. Heywood fitou-a sem esconder seu espanto.
- O que est querendo dizer? Ora, lady Aletha, voc no ignora que, como
debutante, sair de casa assim desacompanhada significa ter a reputao
arruinada para sempre; basta que seu comportamento venha a ser
descoberto.
- Ningum ir saber que lady Aletha Ling est aqui, a no ser que o
senhor conte a algum. - Seu tom era desafiador.
O sr. Heywood encarou-a parecendo confuso, e ela explicou-lhe:
- De agora em diante passarei a ser "srta. Aletha Link", sua neta!
Foi to grande o espanto do sr. Heywood que ele emudeceu. Depois de um
instante deu uma boa risada.
- No acredito no que acabei de ouvir! - ele disse. - Isto no pode estar
acontecendo!
- Deve considerar que esta ser uma explicao mais do que plausvel para
a minha presena. Quem na Hungria sabe se o senhor tem ou no uma neta? 
mais do que certo que ningum ir imaginar que eu seja a filha do duque
de Buclington.
- Ento  esta a histria absurda que inventou?
- No  assim to absurda como est pensando - Aletha respondeu com certa
petulncia. - Tudo o que o duque de Buclington solicitou ao senhor foi
que lhe comprasse alguns cavalos na Hungria. E quem neste pas ir dar
importncia ao fato de o representante de Sua Alteza chegar acompanhado
de uma esposa, uma filha ou neta?
Sempre atenta s reaes do administrador, Aletha notou que seu olhar
ganhou um novo brilho. Ocorreu-lhe que o sr. Heywood era um homem
conservado e atraente para sua idade, por isso talvez tivesse se
surpreendido quando ela lhe sugeriu que poderia passar por sua neta.
Afinal ele respondeu:
- Sua ideia no deixa de ser original, lady Aletha.
- Aletha - ela corrigiu-o. "Lady Aletha" deixar de existir assim que
atravessarmos a fronteira da ustria e depois da Hungria.
- Suponho que voc esteja usando seu prprio passaporte.
- Sim, estou. Acha que no convm usar meu nome verdadeiro? Se for assim,
poderei alterar "Ling" para "Link" e "lady"para "srta."
- No ser preciso, alm de ser arriscado. Vamos esperar que os homens da
fronteira no fiquem impressionados com uma bela visitante a ponto de
guardarem seu nome e mais tarde falarem sobre a chegada dela no pas.
Ao ouvir essa resposta, Aletha sentiu o corao leve. Sabia que o sr.
Heywood concordara com o que ela havia sugerido. Ao mesmo tempo
reconhecia que o bom homem se vira sem outra alternativa.
Inclinando-se sobre a mesa  qual ambos se achavam sentados, sozinhos,
ela pediu-lhe com suavidade:
- Por favor, s quero que me deixe apreciar e montar os belos cavalos que
ir comprar para papai. No estou interessada em festas ou outra coisa.
Acredito que o senhor tambm no esteja.
Em Ling o sr. Heywood era tratado com considerao, e do duque de
Buclington merecia tratamento de gentleman; no entanto, para estrangeiros
ele seria apenas o empregado do duque e como tal seria tratado.
Naturalmente, o fiel administrador no estava esperando que lhe
oferecessem recepes ou que o apresentassem a pessoas importantes ou
mesmo familiares daqueles com quem ele pretendia negociar.
Portanto, ele disse a Aletha com simplicidade:
- Est bem. Ao mesmo tempo, voc achar desinteressante passar por minha
neta, uma vez que ser tratada sem os privilgios e deferncias aos quais
est acostumada.
- Para mim no far diferena, desde que possa apreciar os cavalos. Devo
confessar-lhe que a Hungria  o pas que tenho ansiado por conhecer!
- S espero que no se desaponte! - Agora o tom do sr. Heywood foi seco.
- Tambm no se esquea de que ao regressarmos  Inglaterra haver o "dia
do acerto de contas" com seu pai.
- Suponho que estaremos de volta antes que papai retorne da Dinamarca.
- E se no for assim?
- Nesse caso ele ficar furioso, naturalmente - ela admitiu. - Contudo
tenho certeza de que ele no vai querer que algum saiba desta minha
aventura "escandalosa" que causar comentrios capazes de arruinarem a
minha reputao.
O sr. Heywood no conteve uma risada descontrada.
- Voc  incorrigvel! Porm devo admitir que foi muito esperta e pensou
cada detalhe. Falando francamente, cheguei a pensar em ter eu mesmo que
lev-la de volta  Inglaterra.
- Iria arriscar-se a chegar a Ling sem os cavalos? Imagine a decepo e a
raiva de papai se no pudesse apresentar  imperatriz a surpresa na qual
ele ps tanto empenho!
Pelo silncio e pela expresso do sr. Heywood, Aletha soube que havia
vencido a batalha, o que significava ter ultrapassado o quarto obstculo.
Feliz consigo mesma, ela terminou o desjejum, e voltou para sua cabine
acompanhada do sr. Heywood. A cama j havia sido desarmada pelo
funcionrio que cuidava daquele vago.
Aletha e o administrador sentaram-se num banco estofado e conversaram
durante algum tempo. Ele avisou-a de que na prxima parada desceriam para
o almoo.
- Quanto tempo ficaremos em Viena? - ela quis saber.
- Uma noite apenas. Seu pai recomendou-me que fosse ver o diretor da
Escola Espanhola de Equitao. Ali so utilizados, alm de inmeros
cavalos hngaros, os fantsticos animais da Coudelaria Imperial
Austraca, de Lippiza.
- Oh, quero v-los! - Aletha exclamou sem conter seu entusiasmo.
- Creio que ser arriscado. O diretor conhece o duque muito bem e, como
sem dvida escrever a Sua Alteza dizendo que recebeu minha visita, por
certo a mencionar tambm.
Aletha suspirou.
-  uma pena perder esta oportunidade que certamente seria maravilhosa.
- Sei disso. Contudo, para no tornar as coisas piores do que j esto,
voc dever me deixar decidir o que vai ser melhor para ns dois.
- Est bem! - ela exclamou com um sorriso. - Muito obrigada
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por estar sendo to amvel; reconheo que eu no merecia tanta
bondade de sua parte.
- No  bem assim. Mas confesso que ainda estou horrorizado s de pensar
que voc se envolveu numa situao que ainda poder ter consequncias
desagradveis.
- Est receando que eu no tenha permisso de fazer o meu dbutl Tambm?
pode ser que meu castigo seja ficar trabalhando nas cochoeiras, em Ling,
e com os cavalos de corrida em Newmarket at que todos se esqueam de
mim.
-  claro que isto no acontecer. Bem, lady Aletha, agora, por favor,
no se esquea de que estar viajando num pas de homens muito romnticos
e fceis de se impressionar com uma jovem to linda como voc.
- Sempre ouvi falar sobre os hngaros dessa forma - Aletha concordou.
- Nesse caso, voc deve se concentrar apenas nos cavalos, no que diro
sobre eles, sem dar ateno ao que lhe digam sobre sua prpria pessoa.
- Agora est sendo indelicado - ela protestou. -  claro que desejo ouvir
que sou bonita. Como mame foi uma mulher lindssima, cresci receosa de
que algum ao menos olhasse para mim.
- Sua me foi mesmo a mulher mais linda que j conheci. E, por falar
nela, tenho certeza de que a duquesa ficaria horrorizada se soubesse como
sua filha est se comportando.
Notando que o sr. Heywood falara na duquesa com certa emoo na voz,
Aletha fitou-o, surpresa. Ento, impulsivamente, perguntou-lhe:
- Voc amava mame?
A pergunta deixou o administrador atnito.
- No devia perguntar uma coisa dessas, lady Aletha - ele sorriu. - Creio
que todo homem que conheceu a duquesa de Buclington a amou - o sr.
Heywood admitiu. - Ela no era apenas linda, mas tambm encantadora,
bondosa e compreensiva! Todos a procuravam para falar sobre seus
problemas.
-  uma pena que no a tenhamos mais conosco. Sinto tanto a sua falta.
Seria maravilhoso poder ir a Londres para meu dbut com mame. Em vez
disso, irei com vov. E o pior  que
quando o reumatismo a ataca ela fica to irritada e de mau
humor...
- No pense nisso. Tenho certeza de que sua temporada em Londres ser
muito mais agradvel do que est imaginando. Mas deve compreender que,
para seu prprio bem e em ateno a sua me e ao nome de seu pai, voc
ter de confiar em mim e me deixar proteg-la para que no seja envolvida
em situaes desagradveis como a de ontem  noite.
- Jamais imaginei que um estranho se comportasse daquela maneira
abominvel! Se ele conseguisse ir at minha cabine como pretendia,
poderia... querer me beijar... e at tentar me roubar. Oh, seria
horrvel!
O sr. Heywood concluiu que, em sua inocncia, Aletha no se dera conta do
que aconteceria na verdade. Porm no tinha a menor inteno de explicar-
lhe aquele tipo de coisa.
- Esquea o que aconteceu ontem  noite! - falou com veemncia. - Se
preocupe apenas para que incidente semelhante jamais volte a acontecer.
Basta de agora em diante ficar ao meu lado e trate de no agir por conta
prpria.
- Certamente, vov! - Aletha respondeu com um ar travesso.
S  noite eles chegaram em Viena e foram para um elegante hotel, ainda
novo, inaugurado h apenas dois anos.
Tratava-se do Sacher Hotel, que, alm da imponncia do prdio, j
granjeara a fama de ter a melhor cozinha de Viena.
O sr. Heywood j havia reservado um quarto de solteiro, mas Pediu que os
acomodassem numa luxuosa sute, o que Aletha adorou.
Tendo comido muito pouco no restaurante ferrovirio por no ter apreciado
a comida do mesmo, sentia-se faminta. O sr. Heywood desceu com ela as
escadas e foram para o luxuoso salo de jantar.
Aletha olhou ao redor, maravilhada. S se hospedara em hotel Uma vez,
numa das viagens que fizera  Frana com o pai.
Por um instante ela ficou fascinada admirando as mesas elegantes
iluminadas com velas, os garons passando apressados Para atender com
presteza e ateno os fregueses bem vestidos.
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O sr. Heywood em traje de noite estava quase to elegante quanto seu pai,
pensou satisfeita. Ela tambm usava um lindo vestido novo e sentia-se
trajada  altura daquele ambiente requintado.
Ambos consultaram o cardpio, longo e detalhado, para fa zerem seus
pedidos. O sr. Heywood pediu tambm uma garra a de vinho.
- Imagino que voc vai me dizer que j tem idade suficien te para tomar
vinho! - ele observou.
- Claro que tenho! Sou adulta e, alm disso, papai e ma me j h vrios
anos me permitiam tomar champanhe pelo Na tal e em aniversrios.
-  difcil para mim v-la como adulta. Conheo-a desde bebezinho e a vi
crescer, tornar-se uma garotinha encantadora.
- Depois passei por um perodo horrvel. Eu me achava to sem graa e
desajeitada - Aletha falou com honestidade. Nessa ocasio eu costumava
rezar para tornar-me to bela quanto mame.
- No vou lhe dizer que suas preces foram atendidas. Dei xarei os elogios
para os cavalheiros com quem danar nos bailes aos quais ir em Londres.
Subitamente Aletha lembrou-se de que um desses cavalheiros seria
escolhido pelo duque para ser seu futuro genro. Este pensamento f-la
estremecer.
Prometeu-se, ento, que aproveitaria ao mximo-aquela via gem. Estava
sozinha e no teria que se preocupar em dar ateno a um cavalheiro que a
pediria em casamento apenas porque ela era digna de figurar em sua rvore
genealgica.
Naquele instante o sr. Heywood falava sobre o passado, quando ele era
mais jovem. Falou sobre fatos ocorridos na poca e como era a sociedade
de ento.
O assunto passou para a me de Aletha. O administrador contou que ela era
to linda que, assim que foi apresentada  sociedade, causou a maior
sensao em Londres. Mais tarde, ao se casar com o duque de Buclington,
conquistou todos em Ling.
- Por que nunca se casou, sr. Heywood? - Aletha perguntou ao fim do
jantar.
A seu ver, muitas mulheres certamente teriam-no achado um homem muito
atraente. Porm o sr. Heywood no deu resposta alguma, e ela voltou a
perguntar:
- Teria sido por causa de mame?
- Em parte, sim - ele admitiu. - Porm, quando eu era moo, preferi
divertir-me em Londres e no pensei em me unir a ningum pelos laos do
matrimnio.
- Pelo que j ouvi falar a seu respeito, imagino que tudo o que desejava
era vencer corridas e mais corridas com seus cavalos!
- Realmente ganhei muitas corridas com alguns cavalos excepcionais.
Ento, como voc deve saber, ocorreu o desastre.
- Como pde vir a perder todo o seu dinheiro?
- Perdi-o facilmente. Porm no desejo falar sobre esse assunto.
- Tem razo, claro! - Aletha disse, compreensiva. - Continue o que estava
me contando.
- Seu av ofereceu-me o emprego de administrador de seu haras e mais
tarde continuei a trabalhar para seu pai.
Havia algo no tom de voz do sr. Heywood que dizia a Aletha que ele,
apesar de gostar muito de seu emprego, bem no fundo se ressentia de
precisar trabalhar para os outros, quando poderia ter sua propriedade e
seus prprios negcios.
- Tenho certeza de que mame compreendia o que o senhor sentia - ela
observou como se pensasse em voz alta.
- A duquesa sempre foi uma mulher encantadora e, como j lhe disse, ela
era amada por todos. Contudo, para ela s um homem existia: seu marido.
- Papai tambm s pensava nela. Agora que ele est to sozinho fico feliz
ao v-lo entusiasmado pela imperatriz.
- Tem razo. Por isso teremos que nos empenhar e escolher para ele os
cavalos mais espetaculares que houver e que possam eclipsar os que a
imperatriz possui.
-  exatamente o que vamos fazer! - Aletha exclamou batendo palmas.
Ambos deixaram o salo de jantar e se dirigiram para a sala de estar da
sute que ambos ocupavam. O sr. Heywood comunicou
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a Aletha que pela manh iria ver o diretor da Escola Espanhola de
Equitao.
- Voc ter de ficar aqui e est proibida de sair enquanto no voltar -
ele falou num tom autoritrio.
- Mas eu quero conhecer um pouco da cidade antes de deixarmos Viena!
- Ter tempo de -fazer isso depois do almoo. Nosso trem partir para
Budapeste s dez da noite.
- Ter de me prometer que voltar depressa para o hotel. No quero me
sentir como se estivesse numa gaiola! Se me sentir assim, serei bem capaz
de sair voando pela janela!
- Prometo que minha visita ao diretor da escola ser breve
- o sr. Heywood disse, rindo. - Boa noite, Aletha!
Aletha tambm sorriu e ficou contente porque ele a chamara pelo nome
simplesmente.
- Voc  o mais adorvel e belo av que qualquer jovem poderia desejar
possuir! - ela disse carinhosamente.
- Est me lisonjeando! Falando desse jeito, me faz suspeitar de que voc
esteja querendo obter alguma coisa.
Aletha riu. Indo para o seu quarto, disse a si mesma que at que enfim
conseguira convencer o sr. Heywood a fazer tudo o que ela desejava.
Na manh seguinte, j vestida, Aletha no escondia sua aflio por ter
que ficar sozinha na sute do hotel.
Pelo menos podia ficar  janela. J que a sute ficava ao canto do
prdio, era-lhe possvel olhar em duas direes.
L fora, pessoas caminhavam nas caladas, carruagens subiam e desciam as
ruas e o sol radioso parecia colorir tudo de dourado.
Meninos assobiavam valsas de Johann Srrauss. Como ela poderia estar em
Viena e no ouvir a msica que arrebatara no apenas Londres, mas todos
os outros lugares?
Ocorreu-lhe que logo voltaria para Londres e danaria ao som de valsas.
No mesmo instante, porm, pensou que talvez s pudesse valsar com os
pretendentes que o pai j teria selecionado.
Uma sombra toldou-lhe o olhar.
"Como poderei fazer papai compreender que no quero me casar com homem
algum, a no ser que esteja apaixonada? "
No havia resposta para tal pergunta.
Aquele pensamento deixou-a melanclica. Felizmente o sr. Heywood no
tardou a voltar e, ao v-lo entrando, Aletha deu
grito de alegria e correu ao encontro dele.
- Conseguiu o que queria?
- Sim. O diretor deu-me uma carta de apresentao dirigida ao homem que
cuida das cocheiras imperiais, em Budapeste.
- Acha que ele saber onde ns poderemos encontrar os mais admirveis
cavalos que possam existir?
- Tenho certeza disso! E agora, j que se comportou to bem, Aletha,
vamos fazer um passeio pelas ruas de Viena em uma carruagem aberta, antes
do almoo.
Mais do que depressa Aletha pegou o chapu e ao descer a escada sentia
que os ps tinham asas.
Uma carruagem luxuosa puxada por dois cavalos brancos j se achava
esperando por eles  frente do hotel.
Durante o passeio, Aletha vibrou com tudo que viu: os altos prdios, as
fontes, as pontes sobre o rio e, finalmente, a grande Catedral de Santo
Estvo.
- Posso entrar na catedral? - ela perguntou.
- Claro!
O cocheiro recebeu ordens para parar, e o sr. Heywood acompanhou Aletha.
Ambos entraram na igreja onde os vienenses louvavam a Deus havia tantos
sculos.
O interior da catedral recendia a incenso. Velas ardiam em todas as
capelas e diante de cada imagem repousada sobre um pedestal.
Havia ali uma forte vibrao que convidava  prece. Ficando de joelhos,
Aletha comerou a orar com fervor para encontrar aquilo que buscava.
Desejava casar-se com um homem que a amasse por ela mesma e no pela sua
posio de filha do duque de Buclington.
Sua orao veio do fundo da alma. Sem saber explicar como, ela teve
certeza de que sua prece seria atendida.
Era quase como se algum, talvez sua me, lhe assegurasse
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que tudo iria dar certo e que ela seria muito feliz; no corria perigo de
ser empurrada para um matrimnio sem amor.
Ao contrrio, no tardaria a encontrar o "prncipe de seus sonhos".
Levantando-se, Aletha foi at a imagem mais prxima, colocou uma moeda
numa caixa em frente  mesma e acendeu uma vela, lembrando-se do que
ouvira da me quando criana: a chama de uma vela ajudava a levar a
orao dos fiis ao cu.
Deixando a grande vela que havia escolhido acesa diante da imagem do
santo, ela foi ao encontro do sr. Heywood, que a esperava  entrada da
catedral.
Aletha no tinha conscincia disso, porm trazia no rosto uma expresso
radiosa, como se uma luz brilhasse em seu interior. com a maior
naturalidade, como se estivesse com o pai, ela segurou a mo do sr.
Heywood e ambos tomaram a carruagem para voltar ao hotel.
O trem que saa de Viena para Budapeste no era to confortvel quanto
aquele que Aletha e o sr. Heywood haviam tomado em Ostende.
O administrador conseguiu para ambos compartimentos vizinhos e, com uma
boa gorjeta dada ao encarregado daquele vago, assegurou a total ateno
do funcionrio.
Duas horas depois da partida do trem houve uma parada para os passageiros
irem ao restaurante.
Aletha comeu muito pouco, no s porque a comida no era das melhores,
mas tambm porque no tinha fome.
O almoo servido no hotel havia sido excelente, e antes de partir ela se
deliciara com um pedao do saboroso bolo Sacher, cuja receita era secreta
e exclusiva do famoso hotel.
Ficara sabendo que a receita fora criada por um Sacher, filho do dono do
hotel, quando contava apenas dezesseis anos de idade.
Durante a refeio, a conversa acabou versando sobre os cavalos que
pretendiam comprar.
- O que faremos se no encontrarmos cavalos to fantsticos como os que
temos em mente? - Aletha perguntou a certa altura.
- No correremos esse perigo - o sr. Heywood respondeu.
- Ao contrrio, o problema estar em examinarmos cavalos to
extraordinrios que teremos vontade de comprar centenas deles e no os
oito ou dez que Sua Alteza encomendou.
- Se quisermos testar todos os que nos mostrarem, ainda estaremos na
Hungria cavalgando quando a temporada de caa comear.
O sr. Heywood riu.
-  verdade, e seu pai no ficaria nada satisfeito com nossa demora!
- Cus!  muito importante chegarmos  Inglaterra antes que papai
regresse da Dinamarca.
- Para seu prprio bem, isto tem de acontecer.
Ao regressarem ao trem, eles encontraram suas camas devidamente
arrumadas.
Na manh seguinte chegaram a Budapeste. Aletha ficou maravilhada com a
estao do leste da cidade que tinha o nome de Keleri Pu. Parecia haver
ali algo mgico.
- Keleri Pu  uma das maiores e mais grandiosas estaes ferrovirias da
Europa - o sr Heywood explicou-lhe.
- Acho curioso como as pessoas de certos pases procuram se empenhar em
construir estaes assim grandiosas. Talvez eles tenham ficado muito
impressionados com a era do trem.
- E tm toda razo de se entusiasmarem com uma inveno to fabulosa como
a locomotiva a vapor. Pense no tempo que ganharamos para vir de Londres
at Budapeste viajando de carruagem!
Aletha riu.
- Tem toda razo.
Assim que deixou a estao, ela ficou fascinada pela beleza da cidade.
Nenhum lugar que j havia visitado antes tinha aquela atmosfera de contos
de fada.
Seguindo na carruagem pelas ruas bem cuidadas, ao lado do sr. Heywood,
Aletha no se cansava de admirar as grandes torres e os palcios.
Notou em vrias casas alguma influncia da arquitetura mourisca. As ricas
igrejas eram verdadeiras jias dos estilos gtico e barroco.
Ao notar que a carruagem comeava a subir por uma rua sinuosa, Aletha
indagou:
- Para onde estamos indo?
- Antes de irmos para o hotel, vamos ao palcio real. L veremos o
cavalheiro a quem o diretor da Escola Espanhola de Equitao dirigiu a
carta de apresentao que trago comigo.
No alto da colina, Aletha viu o palcio com suas numerosas colunas e a
grande cpula delineada contra o azul do cu.
- Como  majestoso! - ela exclamou. - Haveria alguma possibilidade de a
imperatriz se encontrar no palcio no momento?
Desapontada, viu o sr. Heywood negar com a cabea.
Ao chegarem ao palcio, ela ficou impressionada com o imenso ptio 
frente do mesmo, onde havia uma fonte de mrmore artisticamente esculpida
e uma colossal esttua equestre.
- O cavaleiro  o prncipe Eugene de Savoy, que lutou contra os turcos no
final do sculo XVII - o sr. Heywood explicou, vendo Aletha to
interessada na esttua.
Ela continuou a olhar para aquela obra de arte e, enquanto admirava o
prncipe, elegante e intrpido em sua magnfica montaria, no deixou de
pensar que era exatamente daquela maneira que imaginava ser um cavaleiro
hngaro.
Do ptio tinha-se uma vista privilegiada da cidade dividida pelo rio
Danbio. Estava to agradvel ficar ali que Aletha no se importou quando
o sr. Heywood lhe sugeriu:
- Voc ficar segura na carruagem enquanto entro no palcio para tentar
encontrar o cavalheiro que pretendo consultar.
O administrador afastou-se, e Aletha viu-o desaparecer por uma porta
guardada por sentinelas de ambos os lados.
Ela permaneceu ento por algum tempo enlevada, admirando a paisagem.
Aletha desceu da carruagem. Primeiro aproximou-se da linda fonte que
arremessava para o alto jatos d'gua que se tornavam iridescentes  luz
do sol e caam sobre as pedras e as esttuas que adornavam a bacia de
mrmore.
O ptio era todo cercado por uma balaustrada, e Aletha foi at ela. Dali
do alto, olhando os barcos movendo-se lentamente nas guas do Danbio,
murmurou involuntariamente:
- Pode haver algo mais lindo do que isso?
- Era exatamente o que eu estava pensando! - disse uma voz vinda do lado
dela.
Aletha surpreendeu-se e, ao virar, deparou com um homem de p a seu lado.
Notando que havia algo de diferente no cavalheiro, alm de seu garbo e
elegncia, deduziu que devia ser hngaro.
Ele dirigiu-se a ela em ingls, porm com um leve sotaque. Percebendo o
ar de surpresa com que Aletha o olhava, ele acrescentou:
- Assim que a vi, cheguei a pensar que tinha diante de mim uma das
slfides do Danbio, sobre as quais sempre ouvi falar mas at este
instante no me havia sido concedido o dom de ver uma delas.
Aletha riu.
- Bem que eu gostaria de ser uma slfide. Mas, falando seriamente, no
pode haver vista mais linda do que esta. Quanto ao palcio, 
deslumbrante!
- Temos orgulho de nossos palcios e mais ainda de nossos cavalos!
- Cavalos? Viemos  Hungria para ver alguns deles.
- Mas no os encontraro aqui em Budapeste - o hngaro asseverou.
- Sei disso. Meu... av est no palcio, no momento,  procura de uma
pessoa que nos informar onde poderemos encontrar os mais magnficos
puros-sangues hngaros.
- Por que esse interesse por cavalos hngaros?
Diante de tantas perguntas, Aletha ficou um tanto alarmada e lembrou-se
de que no devia se aproximar de estranhos. E muito menos correr o risco
de falar demais. Virou a cabea e voltou a fitar o rio l embaixo.
Chamou-lhe a ateno um barco que, com suas velas enfunadas, descia
majestosamente o Danbio.
- Perdoe-me se lhe pareo to curioso - o hngaro se apressou em
desculpar-se. - No entanto deve compreender que no deixa de ser
surpreendente encontrar uma slfide inglesa diante deste palcio e
interessada em cavalos hngaros.
O modo como o cavalheiro falou soou to engraado que Aletha no conteve
o riso.
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- De fato tem razo - ela concordou.
- Espero que no fique desapontada quando for inspecionar nossos
animais.
- Tenho certeza de que isto no acontecer...
Ao dar est resposta, Aletha ia dizer mais alguma coisa, porm ouviu o
som das rodas de uma carruagem e dos cascos de cavalos. Virando-se, viu
uma luxuosa carruagem aberta se aproximando.
Conduzia o veculo um cocheiro usando elegante e vistosa libr, as brisas
e demais partes de metal dos arreios e dos ornamentos dos animais eram em
prata e reluziam ao sol.
Sentada na carruagem estava uma mulher de rara beleza, trajada com
incomparvel elegncia e segurando um pequeno guarda-sol sobre a cabea.
Seus olhos escuros tinham muito brilho; as plumas de seu chapu eram
alegremente agitadas pela brisa. com a mo enluvada ela acenou para o
hngaro, que em resposta inclinou-se num gesto corts.
Dirigindo-se a Aletha ele disse:
- Espero ter o prazer de rev-la algum dia. Tenho certeza de que efetuar
bons negcios em meu pas.
- Tambm acredito que ser assim - ela respondeu. Ele afastou-se e,
seguindo-o com o olhar, Aletha notou-lhe
o porte de atleta e sups que ali estava um excelente cavaleiro.
Assim que o homem chegou perto da carruagem, o criado saltou depressa de
seu banquinho e foi abrir a porta para ele, que agilmente sentou-se ao
lado da lady com o guarda-sol. Esta estendeu-lhe a mo e ele a beijou.
Aletha virou-se, sentindo que no devia estar olhando para o casal.
Deliberadamente voltou o olhar para os barcos deslizando no Danbio,
sabendo pelo barulho que a carruagem se afastava.
Em seguida, ela passou a examinar o palcio e, pouco tempo depois, viu o
sr. Heywood saindo do edifcio.
Ele foi ao encontro dela, mostrando-se surpreso por no vla na
carruagem.
- O cavalheiro que o senhor procurava deu-lhe as informaes sobre os
cavalos? - Aletha perguntou ansiosa.
- Sim, e tambm me deu uma carta de apresentao para cada um dos homens
com quem negociaremos.
- Esplndido! Aonde vamos em primeiro lugar?
- Nossa primeira visita ser ao castelo do baro Otto von Sicardsburg.
- Ele deve ser alemo - ela observou, arqueando as sobrancelhas.
- De fato,  alemo e casou-se com uma princesa hngara.  possuidor de
uma fortuna imensa.
- Ser que tem bons cavalos?
- Asseguraram-me que so fantsticos. Felizmente para ns, j que temos
pouco tempo, o castelo do baro fica relativamente perto do palcio dos
Estrhzy, tambm possuidores de alguns dos mais excelentes puros-sangues
de toda a Hungria.
Aletha sorriu.
- Iremos para o castelo do baro imediatamente?
- Sim. No h necessidade de irmos para o hotel. Tomaremos o trem para
Gyor em seguida.
A carruagem afastou-se do palcio a caminho da estao e o sr. Heywood
admoestou Aletha:
- Voc esteve andando pelo ptio do palcio; sabia que no se pode fazer
isso a no ser com autorizao?
- Tal coisa nem me passou pela mente! Eu no sabia que era proibido!
-  de admirar que no a tivessem censurado pela transgresso.
Aletha pensou no cavalheiro hngaro; este no lhe parecera interessado em
reprov-la. Na verdade, o que vira nos olhos dele havia sido apenas uma
grande admirao, coisa que jamais notara no olhar de outro homem. Seria
ele um aristocrata?
Estava bem de acordo com ele aquela luxuosa carruagem puxada por soberbos
cavalos na qual partira acompanhando a linda e elegante lady.
"Quem sabe foi exatamente por eu estar fazendo algo proibido que o
cavalheiro hngaro procurou falar comigo. Ele deve ter ficado curioso e
quis saber o motivo de eu estar ali, sozinha", Aletha pensou.
Agora pelo menos teria a lembrana daquele cavalheiro que
lhe dirigira a palavra, que a havia admirado e que a achara parecida com
uma slfide.
Porm no iria contar ao sr. Heywood que havia conversado com um
estranho. Seria prudente guardar isso apenas para si, bem como a breve
conversa que ambos haviam mantido.

CAPTULO IV

Na estao, Aletha e o sr. Heywood tomaram o trem para Gyor, uma cidade
antiga e fascinante, com casas de todos os perodos e algumas belas
igrejas, localizada na provncia de Sopron.
O sr. Heywood alugou uma carruagem para lev-los ao castelo do baro Otto
von Sicardsburg que ficava fora da cidade, porm pouco antes do palcio
do prncipe Jozsel Estrhzy, a quem visitariam depois do baro.
Fora do permetro urbano, Aletha exultou com a paisagem campestre. Olhava
ao redor, com grande entusiasmo, observando o grande nmero de cavalos
soltos nos campos; achou-os magnficos e diferentes dos que o pai
possua. Certamente aqueles animais deviam ser fogosos, fazendo jus 
fama dos cavalos daquele pas.
- Fale-me primeiro sobre o baro e mais tarde sobre o prncipe para eu
no fazer confuso com as duas famlias - Aletha pediu.
- O prncipe Estrhzy ficaria ofendido se a ouvisse - observou o sr.
Heywood. - Ele  um dos aristocratas mais importantes da Hungria e tem
muito orgulho de sua linhagem e de sua herana.
- E o baro?
- Meu informante, o cavalheiro com quem estive no palcio real, no me
falou sobre ele com grande entusiasmo. Deduzi que o baro no 
benquisto, mas certamente isto se deve ao Preconceito dos hngaros sobre
estrangeiros.
- Confesso que eu particularmente preferiria tratar de negcios com um
hngaro.
- Eu tambm - o sr. Heywood concordou. - Considero os alemes difceis,
especialmente quando negociamos com eles.
- Vamos esperar para ver; quem sabe no teremos que fi car muito tempo no
castelo do baro.
Contudo, ao entrar na propriedade do baro Von Sicards burg, Aletha ficou
impressionada com o que viu alm dos sun tuosos portes.
Depois do longo caminho de entrada, muito bem cuidado, erguia-se o
imponente castelo, obviamente antiqussimo, com suas janelas arqueadas
que lhe conferiam um estilo pitoresco.
A construo tinha um encanto inquestionvel e diferia com pletamente da
dos castelos ingleses.
Como a magnfica edificao ficava no topo de uma colina o caminho de
acesso era bem ngreme. Porm, quando a car ruagem chegou ao alto da
colina, a vista que se tinha dali era algo de prender a respirao.
As trs grandes torres quadrangulares, de topo achatado, do castelo eram
uma indicao de que o mesmo havia sido no passado uma fortaleza usada
para a defesa da regio, quando a Hungria estava frequentemente em
guerra.
Os visitantes chegaram a um ptio e a carruagem parou por completo. O sr.
Heywood desceu do veculo para ir explicar ao criado que se achava 
porta, em servio, qual a finalidade daquela visita.
O cocheiro recebeu ordens de transportar os visitantes para as cocheiras,
na parte de trs do castelo.
Ao atravessar o ptio, Aletha notou que aquele local no era to antigo
quanto o castelo e ali dominava o primoroso estilo barroco.
Separada das cocheiras havia uma casa tambm construda num perodo bem
posterior ao do castelo.
O sr. Heywood entregou a carta de apresentao a um criado e foi
imediatamente conduzido, junto com Aletha, a uma sala de estar onde um
senhor de meia-idade, de nome Hamoir Kcfvaks, os recebeu.
O sr. Heywood explicou em um ingls sofrvel que era o encarregado dos
cavalos de Sua Senhoria, o baro.
O sr. Heywood descobriu que o francs do sr. Kovaks era mais fluente e
passaram a conversar nesse idioma enquanto tomavam vinho hngaro de
Tokay.
Aletha, que sempre havia associado esse vinho ao encanto e romantismo da
Hungria, experimentou-o, achando-o delicioso.
A conversa sobre os cavalos transcorreu num clima agradvel; o sr. Kovaks
assegurou ao sr. Heywood que tinha belos animais, porm ambos acharam que
j estava tarde para irem v-los.
Os visitantes foram levados para seus quartos, onde se prepararam para o
jantar. Ao descerem encontraram a sra. Kovaks esperando por eles.
Ela era uma senhora agradvel, de constituio robusta e traos bonitos,
o que indicava que devia ter sido uma bela mulher quando mais jovem.
Porm, sendo obviamente uma senhora acostumada a ser subserviente 
classe aristocrtica, mostrou-se muito tmida diante dos hspedes
estrangeiros, o que tornou a conversao difcil durante o jantar.
Foi com satisfao que Aletha se retirou para seu quarto. Na manh
seguinte, ela e o sr. Heywood foram para as cocheiras bem cedo, antes do
desjejum.
Embora os cavalos fossem, ao ver de Aletha, belos animais, ela no se
admirou com as cocheiras e as baias. As de Ling eram muito superiores
quelas.
A inspeo, porm, foi rpida. S depois do desjejum o sr. Kovaks levou
os compradores em perspectiva para o campo a fim de montarem os cavalos
que quisessem, levados por vrios cavalarios.
Foi uma experincia emocionante para Aletha montar animais to bons.
Todavia, ela teve a impresso de que o sr. Heywood no parecia to
satisfeito como era de esperar. Na verdade, ele aparentava um certo ar de
desapontamento.
A impresso dela se confirmou quando, voltando para a casa do sr. Kovaks,
ele segredou-lhe:
- Bons cavalos, contudo no so excelentes como queremos!
- Acha que conseguiremos outros melhores? - Aletha perguntou.
- Tenho plena certeza disso. Mas iremos testar outros animais daqui a
pouco.
Meia hora depois, cerca de vinte cavalos descansados estavam separados no
grande ptio  frente das cocheiras.
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Aletha ia caminhando para o ptio, cheia de interesse, quando viu um
homem vindo do castelo, e logo compreendeu que aquele era o baro.
Ele tinha de fato o tipo fsico de um alemo, porm era bem mais jovem do
que ela havia imaginado e tambm muito bonito. Sua altura era superior a
um metro e oitenta e seu andar, inequivocamente afetado.
Ele cumprimentou o sr. Heywood com condescendncia.
- Soube que o senhor foi enviado pelo duque de Buclington - ele disse. -
Naturalmente terei grande prazer em vender a Sua Alteza qualquer um dos
cavalos que lhe agrade.
S ento ele voltou-se e viu Aletha. Era evidente a surpresa em seus
olhos.
- Quem  esta jovem?
- Minha neta est viajando comigo - o sr. Heywood explicou, parecendo no
muito  vontade.
- Fao questo de que sua neta monte um dos meus mais fantsticos
cavalos! vou acompanh-los. Pode ser que Kovaks no esteja chamando a
ateno de vocs para os melhores pontos de meus magnficos animais!
O modo do baro falar soou rude, porm o sr. Kovaks simplesmente
inclinou-se com humildade:
- Fao o que posso, amo!
- Espero que sim! - o baro retrucou. Dirigindo-se a Aletha, ele mudou de
tom:
- vou trocar-me. Quando voltar, estarei pronto para ver com meus prprios
olhos se a sua habilidade como amazona  to extraordinria quanto a sua
beleza!
Certamente ele acabava de fazer um elogio a Aletha, porm o modo familiar
como ele falou f-la erguer a cabea com altivez.
Poucos minutos depois o baro voltava usando um traje de montaria e fez o
maior estardalhao para escolher o animal que iria montar.
Afinal, escolhido o cavalo, ele reclamou de tudo: a cilha estava frouxa,
os estribos curtos demais...
Aquela exibio de autoridade irritou Aletha. Ocorreu-lhe que seu pai
detestaria fazer negcio com um homem como o baro.
Finalmente ele deu ordens para o encarregado ficar no ptio;
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o sr. Heywood e a neta cavalgariam ao lado dele e alguns cavalarios
os seguiriam conduzindo os demais cavalos que iriam ser testados.
Eles cavalgaram durante algum tempo no mesmo lugar escolhido pelo sr.
Kovaks na parte da manh.
Depois de algumas voltas pelo campo, o baro sugeriu que o sr. Heywood
trocasse seu cavalo para testar outro.
- Monte um outro animal para saltar aquelas cercas - ao falar ele indicou
os obstculos em questo. - No ficar desapontado com o desempenho de
qualquer um dos meus cavalos.
O sr. Heywood escolheu outro cavalo, e Aletha perguntou ao baro:
- Posso saltar com o meu av?
- No. Os obstculos so altos demais para uma mulher!
- ele falou com firmeza.
Aletha ia argumentar, porm achou que seria prudente ficar calada.
To logo o sr. Heywood partiu, o baro conduziu seu cavalo para bem perto
do de Aletha e disse:
- Agora, minha linda lady, fale-me sobre voc.
O modo insinuante como ele dirigiu-se a Aletha deixou-a nervosa. Ento
tocou o chicote no lombo do animal que montava e afastou-se. Mas o baro
a seguiu.
- Voc monta divinamente e  uma jovem adorvel - ele falava num ingls
correto, porm com forte sotaque alemo.
- H tantas coisas interessantes que tenho para lhe dizer...
- Estou ouvindo, baro - Aletha respondeu num tom glacial.
Ela havia parado e estava olhando o sr. Heywood ultrapa-ssar a primeira
cerca com brilhantismo e dirigir-se para as outras.
- Minha esposa no est no castelo - o baro estava dizendo. - Sinto-me
to solitrio. A propsito, eu gostaria de lhe mostrar o castelo. Voc
vai adorar conhec-lo.
- Tenho certeza de que  mesmo maravilhoso, porm receio que meu av
tenha pouco tempo. Ficaremos poucos dias na Hungria.
- Seu av  quem vai comprar os cavalos e no voc, por isso a levarei
esta tarde para ver o meu castelo.
Aletha ia protestar, mas logo reconheceu que poderia ser perigoso
antagonizar-se com o baro. Ento decidiu que iria pedir ao sr. Heywood
para dizer que precisaria da opinio dela para decidir que cavalos iriam
levar.
- Qual  o seu nome?
- Aletha.
- Um lindo nome. To lindo quanto seus olhos e, claro, quanto seus
lbios. - Ele estava bem prximo de Aletha i segurou-lhe a mo. - Vamos
nos conhecer melhor quando estivermos no castelo.
A maneira cpida como o baro falou fez Aletha fustigar o cavalo que
montava. Afastando-se, ela dirigiu-se para as cercas que o sr. Heywood
j transpusera.
O baro deu um grito que ela fingiu no ouvir. com grande estilo saltou a
primeira cerca, tendo o cavalo passado algumas polegadas acima da mesma.
O corao de Aletha batia acelerado devido  emoo da atividade
esportiva. A segunda cerca tambm foi ultrapassada com percia.
Porm ao transpor a terceira o cavalo quase caiu; ela, entretanto,
conseguiu mant-lo de p e firmou-se na sela.
O sr. Heywood j se achava bem distante dela; Aletha forou a montaria a
ir a galope e alcanou-o.
- Por que me seguiu? - ele quis saber. - Estes obstculos so difceis
para voc, principalmente por estar montando um cavalo estranho.
- Aqui estou s e salva! - ela falou alegremente. - Na verdade eu estava
fugindo do baro.
- O que foi que ele andou lhe dizendo?
- Ele esteve o tempo todo me elogiando e me cansei disso
- Aletha disse de modo evasivo.
Ambos voltaram para o ponto de partida, porm evitaram
as cercas.
- Todo o problema reside no fato de voc ter feito esta viagem sem ter
uma chaperon.
- Estou perfeitamente bem em sua companhia - ela falou suavemente, de
modo a tranquiliz-lo.
Imediatamente Aletha arrependeu-se de ter contado que o baro
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havia sido to familiar com ela. Agora o sr. Heywood seria bem capaz
de comprar alguns cavalos ali mesmo e querer voltar para Ling sem ter ido
ver os do prncipe Estrhzy.
- O que achou dos cavalos? - ela perguntou para mudar de assunto. - Vai
comprar alguns? Achei que este que est montando transps a primeira
cerca admiravelmente!
- Admito que h alguns cavalos so magnficos. S receio que o baro, sabendo
que o duque de Buclington  um homem de grande fortuna, queira por eles
uma soma exorbitante.
Quando ambos voltaram, o baro os esperava todo sorrisos.
- Nunca vi meus cavalos saltarem to admiravelmente! ele disse. -
Certamente isso se deve ao cavaleiro e  amazona, que se mostraram
admirveis.
O baro fitou Aletha enquanto falou, porm ela desviou o olhar.
Ela e o sr. Heywood montaram mais trs animais e voltaram para as
cocheiras. O baro insistiu com eles para que fossem almoar no castelo.
O sr. Heywood achou melhor aceitar o convite.
O castelo era sem dvida majestoso. Seus cmodos enormes tinham o forro
em arco, e a lareira que havia em cada um deles era to grande que se
podia queimar ali o tronco inteiro de uma rvore.
O salo de banquetes onde o almoo foi servido podia acomodar facilmente
cinquenta pessoas sentadas.
Aletha achou que, para eles trs, aquela mesa enorme era uma ostentao
desnecessria, assim como o nmero exagerado de criados com suas librs
vistosas e com excesso de enfeites.
A moblia do salo de banquetes era feia e pesada. Nas paredes havia
quadros que no despertaram a ateno ou o interesse de Aletha.
Terminado o almoo, o anfitrio conduziu-os a um outro salo, tambm
grande, com moblia luxuosa, porm de mau gosto.
O baro saiu por um momento e ao voltar comunicou:
- Como estou sozinho no castelo e aprecio muito a companhia de ambos, dei
ordens para trazerem a bagagem de vocs da casa dos Kovaks para c.
Ficarei honrado de t-los como meus hspedes esta noite.
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Obviamente ele falava sem tirar os olhos de Aletha. O sr. Heywood
comprimiu os lbios. Seria embaraoso recusar a hospitalidade do baro;
ento disse:
-  muita ateno da parte de Vossa Senhoria. Contudo teremos de partir
amanh bem cedo. Pretendemos ir tambm  coudelaria do prncipe Jozsel
Estrhzy.
- Ora, no ir encontrar l nada melhor do que lhe posso arranjar! - o
baro objetou, quase rudemente.
- Receio no poder suspender a visita ao prncipe. Ele j se encontra a
nossa espera - o sr. Heywood argumentou. Porm estou interessado em
comprar quatro dos seus cavalos, baro.
- Certamente o duque no estar interessado em quatro cavalos apenas! - o
baro replicou.
- Bem, tudo  uma questo de preo.
No estando interessada em negcios, Aletha ergueu-se e foi at a janela.
A vista dali era deslumbrante.
Todavia ela teve a desconfortvel sensao de que o baro, embora
discutisse com o sr. Heywood o preo dos cavalos, estava com os olhos
fixos nela. Quase podia senti-los queimando-lhe as costas.
Veio-lhe uma vontade sbita de insistir com o sr. Heywood para que
partissem ainda naquela tarde. Porm logo tranquilizou-se. No havia
necessidade de ficar apreensiva.
com o sr. Heywood no castelo, o que o baro poderia fazer? No mximo ele
lhe dirigiria outros elogios.
Os trs voltaram s cocheiras. O baro insistiu para o sr. Heywood
experimentar mais alguns cavalos antes de fazer sua deciso final.
Quanto a Aletha, ele tentou persuadi-la de que havia cavalgado demais
para um dia apenas. Ele gostaria de mostrar-lhe os jardins do castelo e
depois o interior do mesmo.
com firmeza ela deixou bem claro que estava interessada apenas em
cavalos.
Como o sr. Heywood apoiou tudo o que Aletha disse, o baro viu seu
estratagema cair por terra.
Finalmente todos voltaram para o castelo a fim de se prepararem para o
jantar.
com um ar de orgulho, o prprio baro conduziu-os aos quartos que iriam
ocupar, como se esperasse deixar os hspedes impressionados com a
grandiosidade de seu castelo.
Os cmodos eram grandes e mobiliados com gosto e pomposidade tipicamente
alemes.
O anfitrio mostrou em primeiro lugar os aposentos de Aletha e depois
seguiu com o sr. Heywood pelo corredor, at aquele que o hspede iria
ocupar.
Uma criada estava  espera de Aletha, e esta notou que sua bagagem j
havia sido desfeita. Uma banheira tambm fora trazida para o aposento, e
um banho quente e perfumado esperava por ela.
Depois do banho, j vestida, Aletha imaginou que o sr. Heywood certamente
no tardaria a vir cham-la. Nesse instante ouviu uma batida  porta. A
criada foi atender.
De fato era o sr. Heywood. Ele falou com a criada bem devagar para ela
compreender; disse-lhe que desejava falar com a neta a ss.
A criada saiu fechando a porta, e ele foi ao encontro de Aletha, que se
levantou do banco onde se achava,  frente do toucador.
- Sinto muito o que est acontecendo - ele disse em voz baixa.
- Refere-se ao fato de termos vindo para o castelo?
- Refiro-me ao fato de aquele alemo no tirar os olhos de voc.
- Felizmente partiremos amanh; por favor, no me deixe a ss com o
baro.
- Farei isso, e voc deve trancar sua porta e certificar-se de que no h
outro acesso a este quarto.
Aletha olhou para o sr. Heywood sem esconder seu espanto.
- Est insinuando que ele...?
- No confio nele!
- Mas nunca imaginei... nunca me passou pela cabea que um cavalheiro
seria capaz de...
- Sim, eu sei. Agora voc comea a compreender por que no deveria ter
vindo sem uma chaperon.
- No estou desacompanhada! Tenho a sua companhia!
69
- Para o baro, sou apenas um empregado, embora de escalo superior. No
duvido que ele no seja capaz de pr alguma droga em meu leite ou mandar
um criado me golpear na cabea para me deixar inconsciente!
- Falando assim me deixa assustada! - Aletha disse com horror. - Suponha
que o baro consiga, de alguma forma, entrar em meu quarto e... tente me
beijar...
- Tenho uma ideia e a poremos em prtica se voc concordar com a mesma.
Ela olhou com ateno para o sr. Heywood, que lhe explicou:
- Depois que voc se recolher, quando tivermos terminado o jantar,
troque-se e, assim que a sua criada deixar o quarto, v para o meu, que
fica a duas portas depois deste, descendo o corredor. Trocaremos de
aposentos. Pode ficar tranquila que ningum a perturbar durante a noite.
-  uma ideia brilhante! - Aletha exclamou juntando as mos. - Mas...
ser que o baro no ficar desconfiado de nada?
- J me certifiquei de que ele dorme na imensa sute principal do
castelo, a qual certamente faz jus ao seu egocentrismo.
- Ento trocaremos de quarto. Mas, e se ele vier a este quarto e, no me
encontrando, for ao seu, sr. Heywood?
- Se ele entrar aqui, no ir mais a lugar algum! Derruboo com um soco!
Posso estar ficando velho, lady Aletha, porm ainda sou capaz de lidar
com salafrrios do tipo do baro! o sr. Heywood falou com uma nota serena
na voz.
- Obrigada. O senhor  maravilhoso! Sinto muito por estar lhe causando
todo este aborrecimento e tanta preocupao.
Para sua surpresa, o sr. Heywood riu.
- s vezes h alguma desvantagem em ser to linda! Espero que as
experincias desagradveis desta viagem lhe tenham servido de lies
inesquecveis.
- No futuro usarei armadura e trarei comigo um punhal!
- Pelo menos voc tem senso de humor - ele observou com um sorriso. -
Bem, agora vamos enfrentar a fera. Teremos que ficar atentos s
armadilhas.
Ambos desceram a escada e ao chegarem ao salo o baro j os esperava,
elegantemente vestido em seu traje de noite.
Aletha observou-o, sempre evitando-lhe o olhar, e notou que o anfitrio
tinha uma bela aparncia.
Polidamente ele deu-lhe o brao para conduzi-la para o salo de jantar,
o que ela no teve como recusar. - Voc me deixa louco - o baro
sussurrou-lhe ao ouvido e colocou a mo sobre a dela, apertando-a.
Sem dar qualquer resposta, Aletha continuou a caminhar bem
ereta, olhando sempre para a frente.
No amplo salo a mesa estava posta com esmero e um requinte sem igual..
Os pratos eram de ouro e os copos, tambm Messe precioso metal, eram
incrustados com pedras preciosas.
Foi servido um farto jantar, porm Aletha achou a comida um tanto pesada.
O baro conversou bastante, mas dirigiu-se  hspede, ignoando
deliberadamente o sr. Heywood. Contudo recebeu de Aletha, em resposta,
apenas monosslabos. Tudo o que o anfitrio falava soava de maneira
afetada e dizia respeito a sua prpria pessoa. Ele discorreu sobre sua
importncia na Hungria, sobre os conselhos que costumava dar ao
imperador e sobre a casa que estava restaurando e redecoando em
Budapeste.
Chegava a ser nauseante e cansativo ouvir algum jactar-se daquela forma,
mostrando tanta falta de tato e egocentrismo.
Pouco depois de os trs terem voltado ao salo, Aletha ia difter que se
sentia cansada e iria recolher-se quando o mordomo entrou no salo e
dirigiu-se ao baro:
- Herr Kovaks deseja falar com o sr. Heywood, Herr baro.
 - Talvez ele possa esperar que eu v v-lo amanh - o sr. feeywood
sugeriu.
- Herf Kovaks se encontra no hall, min Herr, e diz que
 muito importante - o mordomo explicou.
Diante disso, o sr. Heywood levantou-se, embora relutante,
para seguir o mordomo. Aletha tambm ergueu-se e desculpou-se
diante do anfitrio:
- Sei que Vossa Senhoria compreender se eu subir agora
para meus aposentos. Sinto-me realmente muito cansada.
- Sim, claro, deve fazer isso. Mas primeiro desejo mostrar-
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lhe o presente que tenho para voc. Enquanto isso seu av conversa com
Herr Kovaks.
Indo at uma mesinha, o baro pegou um pequeno embrulho, enquanto, sem
ter outra alternativa, o sr. Heywood deixava o salo.
Assim que a porta se fechou, vendo-se a ss com Aletha, o baro disse:
- Voc  lindssima, Aletha! Quero que aceite este presente que ser o
primeiro dos muitos que espero vir a lhe oferecer.
-  muita bondade de sua parte, mas eu no quero presente algum.
- Abra-o! - No era um pedido. Era uma ordem.
Desfazendo o lao, Aletha desembrulhou uma caixa comprida dentro da qual
estava um estojo de veludo. Ao abri-lo, ela viu, atnita, uma pulseira
estreita, toda de diamantes.
Notando o espanto de sua hspede, o baro murmurou:
- Compreenda que isto  uma pequena demonstrao de quanto voc me atrai.
Mais tarde desejo falar-lhe sobre tudo o que sinto por voc.
com um grito sufocante Aletha fechou o estojo de veludo, deixou-o sobre a
mesa e agradeceu, nervosa:
- Muito obrigada, mas Vossa Senhoria deve compreender que, se mame
vivesse, no me permitiria aceitar um presente caro como esse de um
homem... especialmente em se tratando de um estranho.
O baro limitou-se a sorrir.
- No serei um estranho para voc durante muito tempo. Saiba que tenho
muito mais do que um simples bracelete para lhe oferecer, minha doura!
Ele aproximou-se tanto que chegou a colocar o brao ao redor da cintura
de Aletha, que, ligeira, afastou-se e, antes que o baro conseguisse
impedi-la, correu at a porta.
- Boa noite, Herr baro - ela despediu-se e seguiu apressada para o hall
onde o sr. Heywood se achava conversando com o sr. Kovaks.
Veio  mente de Aletha que fora o prprio baro quem havia forado aquela
conversa entre o sr. Heywood e seu servial para ficar sozinho com ela.
72
- vou para o meu quarto, vov - ela disse, indo para a imponente
escadaria.
Olhando para ela, o sr. Heywood logo soube por sua expresso e tom de voz
que algo desagradvel havia acontecido. Seu primeiro impulso foi
despedir-se do sr. Kovaks e segui-la, porm mudou de ideia.
Continuou a conversar calmamente at o baro vir reunir-se a eles
instantes depois.
Chegando ao seu quarto, Aletha despiu-se ajudada pela criada e vestiu sua
camisola. Ela recomendou  servial que a chamasse bem cedo pela manh e
entrou sob as cobertas.
Assim que a mulher saiu, Aletha levantou-se, vestiu seu lindo nglig que
se achava sobre a cadeira e calou chinelos macios que no faziam
qualquer barulho quando ela caminhava.
Chegando  porta, ela ouviu sons. O baro e o sr. Heywood iam passando
pelo corredor falando sobre cavalos. Sempre atenta, ela teve certeza de
que os dois haviam entrado em seus aposentos.
Olhando para a fechadura da porta, notou que ali no havia chave alguma.
Ocorreu-lhe que o sr. Heywood estava certo ao supor que o baro pretendia
vir ao quarto dela durante a noite.
com um estremecimento e uma sensao de asco, ela imaginou como seria
terrvel se ele tentasse beij-la ou se a tocasse.
Felizmente havia sido prevenida. No fosse o sr. Heywood alert-la,
jamais iria imaginar que um nobre pudesse comportarse de maneira to
vergonhosa, principalmente na prpria casa e com uma hspede.
com certa impacincia Aletha esperou reinar silncio naquela ala antes de
ir para o quarto do sr. Heywood como ficara combinado.
No poderia arriscar-se a ir para l e encontrar o valete que o baro
providenciara para seu hspede. Havia tambm o perigo de ela encontrar
pelo caminho um dos vigias da noite, encarregado de apagar quase todas as
velas, deixando apenas algumas arandelas acesas, o que bastaria para
haver uma fraca luminosidade nos corredores.
Os minutos pareceram se arrastar como se fossem horas.
73
Afinal ela ouviu dois homens passando pela sua porta e conversando em voz
baixa; deviam ser, ela pensou, o valete do prprio baro e o criado que
fora providenciado para atender o hspede.
Esperando mais um pouco, Aletha abriu a porta e espiou; tudo estava
calmo, mas havia pouca claridade no corredor.
Fechando a porta, ela correu at o quarto do sr. Heywood. Encontrando a
porta entreaberta, entrou depressa no aposento onde ele j a esperava.
Vendo-o naquele robe comprido, Aletha achou-o ainda mais alto, dando-lhe
a sensao de estar em segurana junto dele.
- Meu quarto no tem chave! - ela sussurrou ao chegar perto do sr.
Heywood.
- Para mim no  surpresa - ele respondeu, zangado. Bem, este quarto tem
chave e eu j verifiquei que no h como entrar aqui seno pela porta de
entrada. vou sair; tranque-a imediatamente.
- Mas, e se ele entrar aqui com uma chave sobressalente?
- ela perguntou, amedrontada.
- Se isto acontecer, grite! Estarei atento - o sr. Heywood sorriu para
ela. - Estou acostumado a dormir com um olho aberto e o outro fechado,
sempre que estou cuidando de um cavalo doente.
- Nesse caso fico mais tranquila e se precisar gritar o farei com toda a
fora de meus pulmes.
O sr. Heywood ps a mo sobre o ombro dela.
- No se preocupe. Saberei lidar com o baro. Partiremos pela manh, bem
cedo.
- Obrigada! Muito obrigada! Espero que papai jamais venha saber desta
minha aventura; mas, se souber, ele tambm lhe ficar muito grato.
- Agora vou para seu quarto; tranque a porta.
Aletha obedeceu e entrou sob as cobertas na grande cama de casal.
Receando que alguma coisa pudesse acontecer, apesar de todos os cuidados,
ela deixou as velas acesas.
Deitada, tendo os olhos fechados, ela fez uma prece de agradecimento a
Deus por poder contar com uma pessoa to bondosa como o sr. Heywood.
Por outro lado, o baro era um homem repugnante. Jamais imaginara
encontrar algum como ele na Hungria. O cavalheiro que havia encontrado
no ptio do palcio, junto  balaustrada, era to diferente!
Ele a havia elogiado, isso era verdade, porm nada dissera que lhe soasse
vulgar ou repugnante, como acontecera com as palavras ditas pelo baro.
Bem no ntimo ela ficara satisfeita com o que ouvira; o hngaro a
comparara a uma slfide. Entretanto, apesar de ele t-la olhado com
admirao, no vira nesse olhar concupiscncia alguma, tampouco qualquer
familiaridade ou algo que a deixasse amedrontada.
"Ser que voltarei a v-lo algum dia?", Aletha indagou a si. mesma,
melanclica.
Mesmo que jamais voltasse a encontrar aquele cavalheiro, nunca esqueceria
seu porte altivo, seu belo rosto, seu encanto e suas maneiras
aristocrticas.
Seria com base nesse prottipo que ela julgaria os outros homens, no
futuro.
Isso valia para os cavalheiros que viesse a conhecer em Londres e, claro,
para seu futuro marido!
75

CAPTULO V

Aletha tomou o caf da manh em seu quarto, o qual lhe foi servido graas
s providncias tomadas pelo sr. Heywood.
Toda sua bagagem foi arrumada e ao descer ela j o encontrou a sua espera
no hall e, sem dizer nada, conduziu-a pela porta da frente at a
carruagem arranjada pelo sr. Hamoir Kovaks, puxada por quatro cavalos.
Aletha teve a impresso de que o baro nem estava sabendo da partida
deles quela hora da manh.
Ela subiu na carruagem e esperou o sr. Heywood ir dar uma boa gorjeta aos
criados.
Ainda no eram oito e meia quando a carruagem partiu. No havia qualquer
sinal do baro.
Sem conter sua curiosidade, Aletha perguntou:
- O que aconteceu ontem  noite? O baro apareceu no quarto?
O sr. Heywood acomodou-se confortavelmente no assento estofado e
respondeu:
- Foi uma tima ideia ns trocarmos de quartos. Como eu j esperava, o
baro entrou naquele em que eu me encontrava.
- O que ele fez quando o viu ali?
- Sua surpresa foi enorme! - O sr. Heywood sorriu. A minha vontade foi
esmurr-lo at que ficasse inconsciente; talvez isso o ensinasse a se
comportar com dignidade. Entretanto, receando que ele pudesse por
vingana falar mal de voc e a histria acabar chegando  Inglaterra, me
controlei.
Ela ficou meio desapontada porque o baro no teve o que merecia. Ao
mesmo tempo reconheceu que fora melhor assim, principalmente porque,
sendo o sr. Heywood muito mais velho do que seu oponente, poderia no
levar a melhor e sair machucado se resolvesse lutar.
- O que fez ento? - ela perguntou.
com os olhos brilhando, o sr. Heywood contou o que havia acontecido:
- Assim que ouvi o baro entrando no quarto, fingi estar dormindo, para
fazer de conta que acordava sobressaltado ao me dar conta de algum ao
lado de minha cama. A expresso de espanto no rosto do malsucedido
invasor foi impagvel!
- Posso imaginar como ele ficou atnito! - Aletha murmurou.
- Eu havia deixado duas velas acesas e, quando vi o baro, exclamei: "Oh,
perdoe-me, Herr baro, por ter deixado as velas acesas! Adormeci sem t-
las apagado. Vossa Senhoria, felizmente, notou isso e fez muito bem de
ter vindo at aqui! S posso me desculpar mais uma vez pela minha falta
de cuidado. Afinal, velas acesas num quarto so um perigo! "
Aletha no conteve uma boa risada.
- Sua Senhoria deve ter ficado desorientado!
- Certamente! Sua resposta, depois de um momento, foi: "No seja to
descuidado da prxima vez!" Depois dirigiu-se para a porta e, no se
contendo, perguntou antes de sair: "Por que sua neta trocou de quarto? "
- Ele teve o desplante de perguntar-lhe isso? E qual foi sua resposta,
sr. Heywood?
- Fiz questo de olhar fixamente para ele e disse: "Minha neta ficou com
medo de dormir aqui quando viu que este quarto no tinha chave na
fechadura. Antes de deixarmos a Inglaterra, o duque nos recomendou que
tivssemos o cuidado de trancar cuidadosamente a porta de nossos quartos
sempre que estivssemos num hotel ou mesmo em casas, num pas
estrangeiro. Era natural que Aletha se lembrasse dessa recomendao de
Sua Alteza, no acha, Herr baro?
Mais uma vez Aletha riu.
- O que ele disse ao ouvir sua explicao?
- No ouvi bem o que ele murmurou, irritado, antes de sair do quarto.
Assim que ele se foi, fiquei atento e tive certeza de que Sua Senhoria
voltou para seus aposentos. Em todo caso, por precauo, deixei a porta
do quarto entreaberta para poder ouvir voc me chamar caso houvesse algum
problema.
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- Oh, obrigada! Muito obrigada! sem dvida o senhor foi muito esperto! O
baro ... um homem horrvel e espero que tenha aprendido uma boa
lio. Tambm demonstrou muita diplomacia, sr. Heywood, providenciando
nossa partida sem que tivssemos o desprazer de um novo encontro com Sua
Senhoria.
- Achei que voc iria pensar assim. E, de agora em diante, certifique-se
de que h uma chave na fechadura de seu quarto, e antes de se deitar
tranque a porta.
- Tenho certeza de que na Inglaterra no acontecem coisas como essa -
Aletha observou com inocncia.
Um meio-sorriso revelador do seu ceticismo se esboou nos lbios do sr.
Heywood, porm ele permaneceu calado para no desiludi-la.
O assunto sobre o baro foi encerrado para ceder lugar  conversa sobre o
palcio do prncipe Estrhzy.
- A viagem at o palcio vai ser longa, por isso vamos almoar no
caminho; chegaremos l pouco depois do almoo o sr. Heywood comunicou.
- Estou ansiosa para conhecer o palcio - Aletha murmurou.
- Conhecido como "magnfico", o palcio foi construdo no sculo XVIII
por Mikls Estrhzy. O suntuoso palcio ficou conhecido na Europa como
"o Versalhes da Hungria".
- Ele ganhou esse cognome por sua beleza e grandiosidade?
- No apenas por isso. Alm de ser realmente magnfico, o palcio vivia
num clima de festa. Mikls Estrhzy era criativo e organizava recepes
fabulosas que sempre contavam com a presena da imperatriz Maria-Thresa.
Mas o dono do palcio no se mostrava satisfeito. Queria mais esplendor
ainda.
- O que mais Mikls Estrhzy poderia desejar?
- Imagine que ele mandou construir seu prprio teatro lrico! Sua
orquestra particular foi organizada e o regente da mesma foi Franz Joseph
Haydn.
- Que maravilha!
- Depois foi construdo um teatro de marionetes para o qual trazia todo
tipo de divertimento que pudesse atrair para Fertod todas as pessoas mais
famosas do mundo.
- Mal posso esperar para conhecer esse fabuloso palcio!
- Aletha exclamou.
- Acredito que atualmente ele no seja to sensacional como no passado -
o sr. Heywood ponderou. - E no se esquea de que estamos indo para l
interessados nos cavalos que o prncipe possa ter para nos apresentar.
- No me esquecerei disso!
Notando que o sr. Heywood manteve-se calado por algum tempo, Aletha ficou
apreensiva, receando que ele talvez tivesse mais alguma coisa para dizer
a ela e hesitasse em faz-lo. Intrigada, ela ficou imaginando o que
poderia ser.
Afinal ele falou:
- Voc quis fazer esta viagem e me seguiu; tambm combinamos de nos
apresentar como av e neta. Portanto, no v estranhar quando a tratarem
de modo diferente ao qual est acostumada.
-  claro que no espero ser tratada como a filha do duque de Buclington.
- Sempre ouvi dizer que os hngaros so orgulhosos e muito cnscios da
prpria importncia. Estou alertando voc para que no se sinta ofendida
ao ser tratada da mesma forma que eu. Afinal sou apenas um empregado de
seu pai.
- Compreendo. Mas, se as pessoas tiverem um pouco de inteligncia ou pelo
menos alguma percepo, por certo se daro conta de que o senhor  um
cavalheiro e que eu, se minha aparncia no lhes disser nada, sou pelo
menos uma lady.
O modo veemente de Aletha falar provocou o riso do sr. Heywood.
- As pessoas so inclinadas a tratar seus semelhantes levando em
considerao os "rtulos" que lhes so apresentados. Ningum se d ao
trabalho de usar a prpria sensibilidade para ver como as pessoas so
realmente, Porm, de uma coisa voc pode ter certeza, lady Aletha: os
cavalos no tm essa conscincia de classe social e no levam em conta os
falsos valores!
Ambos riram e Aletha passou a se interessar pela beleza da paisagem
campestre.
A carruagem ia vencendo a distncia, passando por montanhas, ribeires,
riachos e campos floridos. Estes no podiam
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estar mais lindos, assim inteiramente cobertos de flores silvestres,
lembrando naquele colorido vivo e naquela variedade de matizes um imenso
tapete oriental.
A parada para o almoo foi feita numa pequena aldeia onde as mulheres
usavam trajes tpicos da regio.
A comida, embora simples e caseira, era saborosa.
Tendo esquecido o desagradvel baro, Aletha comeou a apreciar realmente
aquela terra encantada que sempre excitara sua imaginao.
Os aldees pareciam felizes e cantavam enquanto realizavam as mais
diversas tarefas.
-  natural que a imperatriz Elizabeth ame este pas e ache to agradvel
ficar aqui. Como os hngaros amam tudo o que  belo, por certo tambm a
amam! - Aletha observou.
- Eles a adoram, esta  a palavra certa - o sr. Heywood corrigiu-a. - A
imperatriz vem para c sempre que pode escapar do protocolo rgido e da
vida entediante da corte, em Viena.
- Quando ela for visitar-nos em Ling, vamos nos empenhar em deix-la
muito feliz - Aletha disse com suavidade.
- E ns encontraremos os cavalos excelentes que estamos procurando quando
chegarmos ao palcio dos Estrhzy - o administrador afirmou,
demonstrando sua convico.
- Quantos cavalos foram comprados ao baro?
- Apenas dois, e comprei-os somente para no deixar - Kovaks se
sentir-se
um fracassado.
- Foi muita bondade sua. No comeo da tarde eles chegaram a Fertod. Ao
ver o enorme
porto de ferro todo trabalhado e o primoroso palcio, Aletha
constatou que o que estava vendo superava suas expectativas mais
fantasiosas.
Construdo bem de acordo com a arquitetura hngara, o palcio tinha uma
torre quadrangular. bem alta ao centro do mesmo; as janelas tinham a
padieira arqueada e os relevos acima das mesmas eram im trabalho
artstico notvel.
As esttuas que adornavam o teto e as que se achavam sobre as colunas que
sustentavam o prtico faziam lembrar o estilo Lus XVI.
O sr. Heywood deixou Aletha na carruagem e, descendo da
mesma, foi apresentar suas credenciais a um dos criados que se achava em
seu posto, no interior do prdio.
Enquanto esperava, Aletha ficou embevecida admirando os jardins bem
projetados com suas trs fontes e muitas esttuas.
Havia flores em toda parte: nos canteiros, nos arbustos e nas rvores. O
sol emprestava mais brilho, vida e colorido quele cenrio que se
descortinava diante dos olhos maravilhados da jovem lady recm-chegada.
Uma brisa suave movimentava as hastes e ramagens e fazia danar as guas
das fontes. Aletha deixou-se estar ali, fascinada, como se assistisse a
um bale encantado, num teatro mgico.
Pouco depois, olhou para o palcio e viu um homem saindo pela porta da
frente e sups que se tratasse do sr. Heywood.
Porm, para sua grande surpresa, constatou que aquele era o hngaro que
havia falado com ela no ptio do palcio real de Budapeste.
Obviamente ele ia cavalgar, pois levava um chicote na mo. Seu chapu de
copa alta se achava elegantemente colocado meio de lado, sobre os cabelos
negros.
Notando a carruagem puxada por quatro cavalos ali parada, olhou
casualmente para o veculo; s ento viu Aletha.
Por um instante foi to grande seu espanto que ele ficou imvel. Depois
de alguns segundos, ele caminhou na direo dela.
- Ser mesmo verdade que estou vendo voc? - ele indagou numa voz que
ainda revelava sua surpresa. - Receio estar sonhando!
O hngaro falou em ingls e Aletha respondeu:
- Eu lhe disse que meu av e eu estvamos interessados em comprar cavalos
hngaros.
- Nesse caso vocs vieram at aqui para ver os meus... ou, mais
exatamente, os de meu pai.
- Eu no fazia a menor idia de que viramos ver os seus cavalos!
Olhando para o lugar vazio ao lado de Aletha, ele perguntou:
- Se no est sozinha, para onde foi seu av?
- Ele entrou no palcio. Foi apresentar suas credenciais e explicar a
razo de estarmos aqui.
- Saiba que estou encantado com esta surpresa!  a coisa
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mais adorvel que me acontece em muitos anos! Bem, que tal se nos
apresentssemos?
- Sou Aletha Lin...
Por um momento ela esqueceu-se de que estava se fazendo passar por outra
pessoa e imediatamente corrigiu seu sobrenome para "Link". Por pouco no
se trara.
O hngaro curvou-se.
- Encantado em conhec-la, srta. Link - ele respondeu com os olhos
brilhando. - Sou Mikls Estrhzy, o filho primognito do prncipe
Jozsel.
- Sinto no poder fazer-lhe uma mesura estando sentada, Alteza! - Aletha
desculpou-se.
O prncipe riu e abriu a porta da carruagem.
- Vamos ao encontro de seu av - ele convidou-a. - Assim saberemos que
providncias esto sendo tomadas.
Embora achasse que seria melhor esperar na carruagem, uma vez que o sr.
Heywood poderia aparecer e ambos talvez tivessem que ir a outra casa,
como havia acontecido no castelo do baro, Aletha no resistiu  tentao
de entrar no palcio para ver ainda que fosse apenas uma pequena parte do
seu interior.
O prncipe Mikls estendeu-lhe a mo para ajud-la a descer do veculo.
No interior do palcio ela constatou imediatamente que ele era to
maravilhoso quanto por fora.
Notava-se ali a influncia francesa, o que tornava tudo gracioso, ao
contrrio do castelo do baro, onde o estilo era pesado e de mau gosto.
No hall diversos criados se achavam em servio.
- Creio que seu av deve estar com Hviz, a pessoa que cuida dos cavalos
- o prncipe Mikls disse enquanto conduzia a visitante por um longo
corredor. - Pode acreditar que Hviz est contando maravilhas sobre
nossos puros-sangues, antes mesmo de seu av ter a oportunidade de julg-
los por si prprio.
Ele abriu uma porta e ambos entraram num cmodo que no parecia um
escritrio comum e sim o gabinete de um secretrio de Estado ou de um
ministro.
Ali havia mapas nas paredes e, empilhadas a um canto, estavam vrias
pastas de metal, de segurana, para o despacho de documentos importantes.
O prncipe no se enganara. O sr. Heywood se achava sentado diante de uma
escrivaninha  qual estava um homem tentando se fazer compreender num
ingls ruim e gestos com as mos.
Os dois se ergueram  entrada do prncipe e de Aletha. Esta apressou-se
em explicar ao sr. Heywood:
- Esqueci-me de lhe dizer, vov, que eu j havia falado com o prncipe
Mikls quando esperava pelo senhor no ptio do palcio real - ela sorriu.
- Naturalmente eu no fazia ideia de quem ele poderia ser, tampouco que o
encontraria aqui!
O sr. Heywood estendeu a mo.
-  uma grande honra conhecer Vossa Alteza!
- E eu estou encantado porque o interesse de ambos por cavalos trouxe-os
at Fertod!
O prncipe dirigiu-se ento ao outro homem:
- Tenho certeza de que voc j conseguiu vender ao cavalheiro pelo menos
uma dzia de cavalos, antes mesmo de permitir-lhe que os examine!
- Espero que sim, Alteza! - foi a resposta de Hviz.
- Estou indo para as cavalarias - o prncipe comunicou.
- Vocs poderiam me acompanhar.
-  exatamente o que eu e minha neta gostaramos de fazer, Alteza - o sr.
Heywood respondeu. - Porm eu desejaria saber onde iremos ficar
hospedados e tambm preciso pagar o cocheiro da carruagem que aluguei
para nos trazer at aqui.
- Se eu soubesse que viriam at Fertod, eu mesmo teria ido busc-los na
estao - o prncipe observou, solcito.
- Estamos vindo do castelo do baro, em Gyr - esclareceu o sr. Heywood.
- Ah, do baro Von Sicardsburg! - disse o prncipe. Ele se vangloria
demais, porm lhes asseguro que seus cavalos nem se comparam com os
nossos! No  mesmo verdade, Hviz?
- Certamente, Alteza!
- Ele  um homem... horrvel - Aletha disse impulsivamente. - Arrependo-
me de termos feito... negcio com ele.
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O prncipe Mikls dirigiu a Aletha um olhar penetrante antes de dizer com
veemncia:
- Tem toda razo, srta. Link.  sempre melhor no ter nada a ver com o
baro.
- Espero jamais voltar a v-lo - ela murmurou.
Dando-se conta de que no devia continuar com aquele assunto, para seu
prprio bem, Aletha virou-se para a porta e pediu:
- Poderamos ir para as cavalarias?
- Claro. - O prncipe voltou-se para o sr. Heywood. O senhor e sua neta
ficaro hospedados neste palcio. A propsito, seu sobrenome tambm 
Link, como o dela?
- No, Alteza. Meu sobrenome  Heywood. A me de Aletha era minha...
filha.
O modo como ele falou revelou a Aletha o quanto ele estava detestando ter
de mentir. Tambm um pouco embaraada, ela dirigiu-se depressa para a
porta.
O prncipe apressou-se e a abriu para sua nova hspede, acompanhando-a
pelo corredor e sendo ambos seguidos pelo sr. Heywood e Herr Hviz.
No hall o prncipe deu ordens a alguns criados para que fossem buscar na
carruagem a bagagem dos recm-chegados.
Enquanto o sr. Heywood foi pagar o cocheiro, o prncipe seguiu com Aletha
por um outro corredor.
- Por aqui chegaremos bem mais depressa s cavalarias ele explicou. -
Alm disso voc poder conhecer parte desta ala do palcio, a qual 
muito grande. Mais tarde poderei mostrlo a voc.
- J ouvi dizer que o palcio  magnfico. Confesso que ficarei muito
aborrecida se tiver que partir sem ter conhecido o salo de msica.
- Voc tambm gosta de msica?
- Sim. Muito.
com voz profunda o prncipe Mikls disse a Aletha:
- Pensei muito em voc desde que a vi ontem em Budapeste. E voc, tambm
pensou em mim?
Diante da confisso e da pergunta inesperadas, ela sentiu um sbito rubor
tingir-lhe as faces. Ocorreu-lhe que devia responder que o esquecera por
completo, porm a mentira no lhe veio
aos lbios,
- Voc pensou! - ele disse num tom triunfal ao notar-lhe
o silncio e o ligeiro embarao. - Tive certeza de que foi por
obra dos deuses que nos encontramos no ptio do palcio real.
No poderia ser de outra forma.
- Meu av me chamou a ateno e disse que eu no devia
ter sado da carruagem.
- Para mim voc saiu voando daquela carruagem e, como
no  humana, s eu a vi, ningum mais!
 Aletha no conteve o riso.
 - Estou perfeitamente inclinada a acreditar que na Hungria
pode acontecer tudo que seja mgico!
- Gosta de meu pas?
-  lindo demais! No  de admirar que a imperatriz Elizabeth ame a
Hungria e anseie por estar aqui.
- Ento j ouviu falar sobre nossa imperatriz?
- Sim, claro e papai quer...
Aletha interrompeu a tempo o que ia dizer. No poderia menCionar que seu
pai, o duque de Buclington, estava interessado
em comprar cavalos magnficos para fazer uma surpresa para
a imperatriz quando esta fosse passar alguns dias em Ling.
Confusa, ela concluiu a sentena:
- isto , meu av quer comprar cavalos para o duque de
Buclington.
- Imaginei que os cavalos fossem para seu av!
- Bem que ele gostaria que fosse assim! Quando era mais jovem, vov foi
um dos mais famosos cavaleiros amadores da Inglaterra, mas ele perdeu
toda a sua fortuna.
- Est dizendo que atualmente o sr. Heywood trabalha para o duque de
Buclington?
- Exatamente.
Houve uma pequena pausa e, sabendo o que o prncipe estava pensando,
Aletha ponderou:
- Creio que Vossa Alteza ofereceu-nos a hospitalidade de seu palcio
baseando-se numa falsa impresso.  claro que meu av e eu
compreenderemos se desejar mudar de ideia.
- De forma alguma - ele protestou depressa. - No tenho
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a menor inteno de voltar atrs. Eu apenas estava pensando que seu
av parece ser um verdadeiro cavalheiro ingls.
- Ele  um cavalheiro ingls - Aletha afirmou de modo categrico.
Olhando para ela, o prncipe viu um sorriso brincando em seus lbios e
sua expresso travessa.
- Voc falou de um modo to acusador e eu no cometi crime algum. Disse a
verdade sobre seu av. Ele tem uma bela aparncia e parece reunir todas
as qualidades que eu prprio admiro em um cavalheiro ingls. Achei
difcil acreditar que ele no fosse um homem rico.
Aletha concluiu que o prncipe contornara habilmente aquela situao
desagradvel. Achou tambm que devia insistir que ela e o av no se
ofenderiam se no ficassem hospedados no palcio.
Dirigindo a ele um sorriso encantador, ela disse:
- Sinto que estamos abusando de sua generosidade; j ouvi falar que a
nobreza hngara  orgulhosa e autocrtica.
O prncipe riu.
- Vejo que est mesmo disposta a me julgar! Por favor, minha linda
slfide, no seja to m comigo! - O tom dele era zombeteiro.
Pouco depois o sr. Heywood e Herr Hviz reuniram-se a eles.
As cavalarias faziam jus ao palcio; eram igualmente magnficas. As do
baro nem chegavam aos ps daquelas.
Os quatro foram examinando baia por baia, e Aletha s tinha olhos para
aqueles animais que realmente achasse fantsticos e que sem dvida
satisfariam um homem exigente como seu pai.
A verdade era que a escolha no seria uma tarefa simples; todos os
cavalos lhe pareceram excepcionais.
Depois de examinados mais de vinte animais, Aletha perguntou ao sr.
Heywood:
- No poderamos apresentar uma oferta por todos eles?
- No vai fazer uma coisa dessas! - O prncipe interveio antes de o sr.
Heywood responder. - Voc est se referindo aos nossos cavalos mais
fenomenais e mais valiosos. Como pde ser to cruel, a ponto de querer
que eu ande a p, em vez de cavalgar? Aletha sorriu.
- Por falar nisso, Vossa Alteza ia cavalgar quando chegamos, no  mesmo?
- Seu av e eu cavalgaremos agora.
 - Se eu me trocar bem depressa, poderei acompanh-los?
 - Quanto tempo levar para trocar esse vestido por um traje
de montaria? - o prncipe indagou.
- Dois minutos!
 O prncipe riu.
 - Bem, concedo-lhe mais oito e, depois desse tempo, se no
estiver de volta, iremos sem voc.
Aletha soltou uma exclamao de horror e Herr Hviz
ofereceu-se para mostrar-lhe seus aposentos.
- Eu a levarei at seu quarto, srta. Link. Uma das camareirs j deve ter
desfeito sua bagagem.
Ao caminhar ao lado de Aletha, Herr Hviz teve dificuldade
em acompanh-la, pois ela quase correu pelo corredor e subiu
os lances da majestosa escadaria como se tivesse asas.
Um dos criados j avisara a governanta sobre a chegada dos
hspedes e ela j se achava  espera da srta. Link no primeiro
andar e conduziu a hspede a um quarto de sonhos.
Veio  mente de Aletha que o prncipe no iria oferecer-lhe
aqueles aposentos se soubesse que o sr. Heywood no passava de um
empregado do duque de Buclington.
Todavia, no era o momento de pensar nisso. Ela comeou
a trocar-se e em questo de poucos minutos j se viu usando
um belo conjunto de montaria.
Sem perder tempo de olhar-se ao espelho, Aletha colocou na cabea um
chapu enfeitado por um pequeno broche e saiu apressada do quarto. Seguiu
pelo mesmo caminho feito na vinda, sem esperar que algum a guiasse.
Nas cavalarias, o sr. Heywood, montado num belo alazo,
dava voltas pelo ptio pavimentado com pedras arredondadas.
Um garanho negro acabava de ser selado para o prncipe
e o cavalo cinzento, ao lado do garanho, j esperava para ser
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montado por Aletha. Ao v-lo ela achou-o espetacular em todos os
sentidos.
- Eu tinha razo de dizer que voc era uma slfde! - o prncipe dirigiu-
se a ela com um sorriso. - S mesmo uma slfde teria voltado com tal
rapidez.
- Pelo menos agora posso descansar um minuto - Aletha disse, ofegante.
- Sabe que eu a teria esperado, srta. Link - ele falou com suavidade.
Quando ela quis montar o belo cavalo cinzento que lhe fora destinado,
imaginou que o prncipe fosse ajud-la oferecendo-lhe as mos em concha
para ela apoiar um dos ps.
Porm ele a segurou pela cintura fina e a colocou na sela, fazendo-a
estremecer com aquela proximidade e o contato das mos dele.
Por um instante Aletha ficou dominada por aquela sensao estranha que
no conseguiu compreender. Ao voltar ao normal viu que o prncipe acabava
de arrumar-lhe a saia sobre o estribo.
Ele ergueu a cabea para fit-la e disse num tom brincalho:
- Imagino que no ficarei desapontado ao v-la cavalgando, mas, se isso
acontecer, creio que me matarei!
- Est sendo dramtico demais!
Aletha falou sem pensar e receou ter sido rude, mas se tranquilizou
quando ouviu o riso espontneo do prncipe.
Ele saiu do ptio acompanhado por seus hspedes; os trs passaram pelos
paddocks bem cuidados e se dirigiram para uma campina extensa que se
perdia no indistinto horizonte.
Herr Hviz no os acompanhou.
Os cavalos no precisavam ser incitados para galoparem to rapidamente
quanto era o desejo dos cavaleiros e da amazona.
Para Aletha era como estar cavalgando num paraso, entre borboletas que
adejavam sobre as florinhas silvestres da campina e que, de vez em
quando, agitadas, esvoaavam  frente deles. Aves canoras passavam voando
sobre suas cabeas.
Ela cavalgava  frente dos dois, sentindo a brisa no rosto e a claridade
ofuscante do sol. O prncipe no tardou a ficar do lado dela.
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 Aletha notou que ele era um cavaleiro excelente e montava como se fosse
parte do soberbo animal.
Depois de terem vencido cerca de uma milha, ela disse ao prncipe:
- Que-maravilha!  ainda mais maravilhoso do que em meus sonhos!
- Quando a vi pela primeira vez, pensei a mesma coisa: achei-a ainda mais
maravilhosa do que a mulher que via em meus sonhos - ele respondeu.
Surpresa, Aletha encarou-o. Porm nada disse porque o sr. Heywood veio
juntar-se a eles e refreou seu cavalo.
- Reconheo que a fama de sua coudelaria  mais do que merecida, Alteza -
ele disse ao prncipe. -  difcil encontrar adjetivos capazes de
expressar a superioridade de seus cavalos.
- Apraz-me ouvir isso, mas devo deixar bem claro que nenhum destes trs
cavalos est  venda!
- J suspeitava disso - o sr. Heywood respondeu, pesaroso.
- Temos muitos outros belos animais que o agradaro. Amanh poder montar
aqueles que lhe aprouver e ento faremos negcio.
A vontade de Aletha era dizer que gostaria muito de adquirir o fogoso
cavalo que estava montando, mas compreendeu que seria um erro interferir.
A volta para o palcio foi feita por um caminho diferente. Como a tarde
findava, os camponeses haviam deixado o trabalho e regressavam para seus
lares, cantando enquanto caminhavam.
Era muito agradvel ouvir as vozes mais graves dos homens harmoniosamente
combinado com as vozes mais agudas das mulheres e das crianas.
Notando a expresso de contentamento de Aletha, o prncipe observou:
- Achei que voc iria gostar de ouvir nossa gente cantando. Tambm
acredito que ir apreciar nossa msica cigana.
- Claro! Adoraria! Ser possvel assistirmos a um espetculo cigano?
- Nada  impossvel em se tratando de satisfaz-la. Ver os
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ciganos cantando e danando amanh  noite. Melhor ainda: daremos uma
festa.
Os olhos de Aletha brilharam como centelhas. Contudo ela disse:
-  muita bondade de Vossa Alteza, mas ainda nem conhecemos seus pais.
- Minha me j morreu e meu pai, da mesma forma que eu, adora festas,
principalmente quando so oferecidas a algum muito especial.
Aletha pensou em dizer que o prncipe Jozsel certamente no iria
consider-la uma pessoa especial, tampouco o sr. Heywood. Mas manteve-se
em silncio.
Mais tarde, ela achava-se em seu quarto, j vestida para o jantar, quando
o sr. Heywood veio busc-la para descerem juntos. A criada ainda se
achava no aposento.
- Espero que esteja se divertindo - ele disse.
- Muito!
Aletha no podia estar mais encantadora naquele maravilhoso vestido
branco e prateado que fazia parte do rico enxoval comprado especialmente
para sua temporada em Londres, como debutante.
O gracioso modelo, confeccionado em tecido branco, fino e transparente,
tinha um forro justo em lam prateado. Sobre a saia, o tecido branco
formava um drapeado que, puxado para trs, ia compor as anquinhas, que
eram arrematadas por um grande lao feito com fitas brancas e prateadas
que tinha as pontas caindo onduladas, acompanhando a pequena cauda do
vestido.
A cada movimento de Aletha ela cintilava como o luar sobre a gua.
Ocorreu-lhe que ao v-la o prncipe iria, mais do que nunca, ach-la
parecida com uma slfide.
Sua inteno era no usar jia alguma, uma vez que fingia ser neta de um
empregado do duque. Trouxera as jias consigo pensando em empenh-las
sempre que necessitasse de dinheiro.
Mas Aletha no resistiu  tentao e colocou um colar de diamantes que
pertencera a sua me e prendeu entre os seios um broche tambm com as
mesmas pedras do colar, tendo o mesmo a forma de uma estrela.
A criada saiu do quarto, deixando os hspedes a ss. O sr. Heywood no se
cansava de admirar Aletha e de elogi-la.
- O senhor no acha que estamos ocupando estes luxuosos aposentos por
engano? - ela perguntou em voz baixa. - O prncipe Mikls pensou que o
senhor estivesse querendo comprar os cavalos para si mesmo e no para meu
pai. Certamente no teramos estes quartos, tampouco jantaramos no salo
se ele tivesse conhecimento da verdade desde o incio.
- Bem que eu notei estes privilgios. Lembro-me de como fomos recebidos
logo que chegamos ao castelo do baro.
No deixou de ocorrer a Aletha o pensamento de que, se o baro soubesse
de sua verdadeira indentidade, jamais se comportaria com ela como se
comportou.
No ousaria oferecer-lhe um bracelete de diamantes, tampouco se atreveria
a ir a seu quarto no meio da noite.
- Bem, diz o ditado que temos que aproveitar as oportunidades! - O sr.
Heywood estava dizendo, depois de ter ficado um instante pensativo. -
Sabe-se l se amanh no seremos transferidos dos melhores quartos deste
palcio para alguma pocilga!
- Que horror! No poder ser to mau assim - Aletha riu.
- Mas eu no me importaria se tivesse que passar a noite com o cavalo que
montei esta tarde!
- Notei que voc gostou muito do animal, mas o prncipe deixou bem claro
que o mesmo no est  venda.
- Se quer saber minha opinio, ele no foi honesto deixandonos
experimentar uma mercadoria fora do nosso alcance!
O sr. Heywood riu.
- Se Sua Alteza ficar sabendo o que voc acaba de dizer a respeito dele,
pode ficar certa de que, a, sim, deixaremos nossos confortveis
aposentos!
Terminando de falar, ele deu uma volta pelo quarto e, olhando para a
porta, verificou que a mesma tinha a devida chave na fechadura.
Sabendo qual era a preocupao do bom homem, Aletha teve vontade de lhe
asseverar que ali estava segura. Seu instinto
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lhe dizia que o prncipe era um cavalheiro e jamais agiria como o baro.
Era verdade que ele lhe dirigira elogios, porm o fizera sem o olhar e o
tom de voz concupiscentes do baro.
Alm disso, ela sentia que o prncipe era um homem diferente. Ele era
hngaro e j lhe haviam prevenido de que os hngaros eram muito
romnticos.
Num dos livros que ela havia lido, embora a leitura do mesmo lhe tivesse
sido proibida, havia meno ao fato de os hngaros serem amantes ardentes
e apaixonados.
No que Aletha tivesse plena compreenso do que isso poderia significar,
mas tinha a vaga ideia de que as pessoas que se amavam gozavam de muita
intimidade.
Subitamente ela lembrou-se de que se o baro a encontrasse em seu quarto
na noite anterior sem dvida tomaria liberdades com ela. S de pensar
nessa possibilidade, um calafrio percorreulhe a espinha.
"Mas o baro no foi nada romntico", Aletha pensou. "Ele no passa de um
homem sem escrpulos. Seria aviltante se chegasse a me tocar! "
Quanto ao prncipe, havia algo nele que a fazia lembrar os Cavaleiros da
Tvola Redonda, a respeito dos quais havia lido quando criana.
Mais do que isso: o prncipe Mikls reunia as qualidades que ela buscava
no "prncipe de seus sonhos".
Sendo uma pessoa sensata, ela disse a si mesma que estava sendo ridcula.
No devia se empolgar porque um prncipe lhe havia dirigido elogios. Ele
teria feito isso com qualquer mulher cuja beleza admirasse.
Portanto, lev-lo a srio seria rematada tolice. Poderia at ser que ele
viesse a se mostrar to familiar quanto o baro por consider-la uma
pessoa de classe inferior, e cujo av no passava de um mero empregado do
duque de Buclington.
Subitamente sentiu como se uma mo glida lhe agarrasse o corao.
com esforo voltou a ver as coisas atravs do prisma da praticidade.
Estava na Hungria para passar poucos dias; assim que
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comprassem os cavalos para seu pai, regressariam a Inglaterra. Ento
jamais voltaria a ver o prncipe Mikls.
J descendo a escada, ela disse a si mesma que seria, alm de perda de
tempo, um grande erro ficar pensando no seu belo
anfitrio.
Este j os esperava quando entraram no maravilhoso salo onde ficaram
alguns minutos antes de o jantar ser anunciado. O prncipe, que se achava
de p junto  lareira, conversando com outras pessoas, foi receb-los.
Ele no podia estar mais elegante e mais encantador do que estava naquele
seu impecvel traje de noite.
Ao v-lo, Aletha sentiu algo estranho em seu peito e chegou
a corar.
O prncipe tomou-lhe a mo.
- Devo dizer-lhe que voc mais parece uma ninfa que acaba de sair de uma
das fontes! - ele segredou-lhe. - Agora quero que conhea meu pai.
Ao chegar diante do prncipe Jozsel, Aletha fez uma graciosa mesura e no
deixou de notar que ele era o retrato de como seu filho Mikls ficaria
anos mais tarde.
O segundo filho, Nikolas, tambm era muito parecido com
o pai. J a filha, Misina, era diferente, e Aletha ficou sabendo
depois que era muito parecida com a me, que havia sido uma
princesa romena.
Toda a famlia Estrhzy mostrou-se muito amvel com os
visitantes.
Durante o jantar a conversa foi inteligente, espirituosa, todos riram
bastante. Os pratos servidos, alm de requintados, estavam saborosssimos
e foram acompanhados pelo vinho de Tokay e por champanhe francs.
O servio era de porcelana de Svres, o que Para Aletha era prefervel
aos extravagantes e ostentosos pratos e baixela de ouro usados pelo
baro.
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- O que achou do castelo do baro Von Sicardsburg, onde se hospedaram
ontem  noite? - o prncipe Jozsel perguntou
a Aletha.
- Tive a melhor das impresses ao v-lo Por fora, porm achei seu
interior pomposo e de forma alguma se compara ao
seu adorvel palcio, Alteza - Aletha respondeu com sinceridade.
- Foi o que tambm achei quando l estive certa vez - o prncipe Jozsel
observou com um sorriso.
- E o que achou do dono do castelo? - quis saber o prncipe Nikolas.
O modo como ele perguntou fez Aletha suspeitar de que ele j ficara
sabendo pelo irmo que ela no havia gostado do baro. Por isso respondeu
com certa reserva:
- Achei-o bem parecido com seu castelo!
Todos riram e o prncipe Jozsel elogiou-a por aquela resposta:
- Muito bem, srta. Link! Esta foi uma resposta diplomtica.  sempre um
erro fazermos inimigos, a menos que sejamos forados a isso.
- Voc pode dizer isso, papai, porque no tem inimigos!
- Misina exclamou. - Ningum tem coragem de se opor a voc ou de
hostiliz-lo!
- Eu ficaria muito mais lisonjeado se voc me dissesse que sou amado por
ser exatamente como sou.
- Isso  impossvel, papai - Misina replicou. - E o que digo se aplica a
todos de nossa famlia.
- O que est querendo dizer, minha filha?
- Como somos Estrhzy, parece haver uma aura ao nosso redor e  isso que
as pessoas notam primeiro sem ficar preocupadas conosco como gente.
Ningum nos v como simples seres humanos.
Tudo o que Misina disse traduzia exatamente o que Aletha pensava, e
empolgada ela reforou aquele ponto de vista.
- Acho que Misina tem razo. Creio que se as pessoas forem inteligentes e
sensatas procuraro ver o que h de verdadeiro em seus semelhantes, sem
levar em considerao os adornos, as pompas ou os ttulos. Eu, por
exemplo, desejo ser amada por mim mesma e no por qualquer outra razo
Terminando de falar, ela notou o olhar que o sr Heywood
**94ethTin e Sento CaU em S: estVera falando como  lady Aletha
Ling e no
como a simples "srta. Link". Ento apressou-se em acrescentar:
- Mas, naturalmente, no h termo de comparao entre
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vocs, com este maravilhoso palcio, e uma pessoa comum como eu.
Ela prpria achou que estas ltimas palavras no soaram muito
convincentes. Porm logo se tranquilizou, uma vez que ningum pareceu ter
estranhado seu raciocnio.
Como os franceses, a famlia Estrhzy adorava um debate e em pouco tempo
todos estavam dando sua opinio e discutindo sobre a importncia de
ttulos, riqueza e posio e se os mesmos poderiam ser um empecilho na
formao do carter das pessoas.
A certa altura Misina disse com ironia:
- Ora, ningum v o papa ou um imperador como uma "pessoa comum"!
J o prncipe Nikolas disse de modo positivo:
- Para mim uma mulher  sempre uma mulher, seja ela uma imperatriz ou uma
camponesa!
A famlia no ignorava que Nikolas tinha uma grande admirao pela
imperatriz Elizabeth.
Na opinio do prncipe Jozsel, a sociedade devia ter diferentes classes
de pessoas. Ele alegou:
- Se todas as pessoas fossem iguais, a estrutura social se desmoronaria.
- E seria muito bom! - o prncipe Nikolas exclamou. O prncipe Mikls
manteve-se calado.
Depois do jantar, Misina executou com brilhantismo algumas peas ao
piano.
Aletha gostou das lindas composies hngaras e das de Strauss. Ao ouvir
o Danbio Azul, moveu o corpo ao ritmo da valsa, embora no tivesse
conscincia disso.
Em dado momento ela virou-se e constatou que o prncipe Mikls a fitava
intensamente, o que a fez sentir uma sbita timidez.
Quando, finalmente, Aletha e o sr. Heywood despediram-se de todos para
subirem para seus aposentos, o prncipe Mikls e o pai os acompanharam
at a escada.
O sr. Heywood e o prncipe Jozsel ficaram ainda um instante conversando,
e o prncipe Mikls disse baixinho a Aletha:
- Estou exultante por t-la aqui! Voc est linda neste seu
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vestido tecido de luzes e no parece ser parte apenas de nossas fontes
mas tambm de minha casa.
- Este ... um grande elogio - Aletha respondeu simplesmente.
- Estou falando srio. Esta noite ficarei acordado contando as horas at
ver chegar o dia de amanh.
Os olhos de ambos se encontraram e nenhum deles desviou o olhar durante
um momento.
O sr. Heywood comeou a subir os degraus e com dificuldade Aletha deixou
o prncipe para segui-lo.
Novamente seu bom senso a alertou para no levar o belo prncipe Mikls a
srio.
Ele era muito romntico, no havia como neg-lo, porm poderia ser
diferente se ambos estavam na Hungria?

CAPTULO VI

Na manh seguinte, Aletha e o sr. Heywood foram para as cavalarias logo
aps o desjejum, acompanhados do prncipe.
Muitos outros cavalos haviam sido trazidos ali para exame dos
compradores. No eram animais to magnficos como aqueles que o prncipe
desejava manter, porm eram novos e com adestramento se tornariam
igualmente fantsticos.
Observando o sr. Heywood, Aletha viu seu entusiasmo diante do novo love
que o prncipe lhes apresentara.
Os trs foram para a campina, e Aletha cavalgou ao lado do prncipe. O
sr. Heywood, interessado somente em testar o animal que montava,
adiantou-se para fazer sua montaria saltar obstculos inesperadamente.
Ao voltar galopando, sua expresso era de contentamento. Ele trocou de
animal vrias vezes, sempre interessado em selecionar os melhores cavalos
para levar para o duque.
Durante a tarde os testes com os cavalos prosseguiram.
A certa altura Aletha disse ao prncipe Mikls:
- Vov insiste em escolher os cavalos mais espetaculares e obviamente
est achando a tarefa difcil, uma vez que todos os animais so
excelentes.
- E ns estamos dispostos a vender todos os animais, com exceo daqueles
que temos interesse em conservar.
- A questo  que deseja os melhores cavalos s para si. Est sendo
egosta! - ela o acusou.
- Desejo muitas outras coisas alm de cavalos.
Ele falou olhando-a fixamente e sua expresso, j bem conhecida de
Aletha, mais uma vez perturbou-a e f-la sentir uma forte emoo.
Cada vez mais ela se dava conta de que estar ao lado do prncipe Mikls
no era apenas interessante ou agradvel. Bastava
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a presena dele para deix-la dominada por um entusiasmo e emoo que
jamais havia experimentado antes.
"No posso me deixar envolver", ela pensou. "Logo voltarei para casa e
nunca mais vou ver o prncipe."
Todavia, os sentimentos independem da razo, e Aletha no conseguia
sufocar o grande jbilo que sentia s de ficar ao lado dele; tambm no
tinha como evitar que o corao saltasse dentro do peito ao ouvir o
prncipe dirigir-lhe um galanteio.
- Voc  encantadora demais para ser apenas um ser humano - o prncipe
Mikls estava dizendo. - Desde que a vi pela primeira vez passei a
duvidar de meus sentidos e vivo me perguntando se voc  mesmo real.
- Certa vez papai me disse que se espetarmos um alfinete em um rei e ele
sangrar ento teremos certeza de que ele  um ser humano.
Ela ficou esperando que o prncipe fizesse alguma observao espirituosa
sobre o que acabara de dizer, porm ele, alm de se manter calado,
desviou o olhar.
Surpresa, Aletha ficou por um instante analisando-o e soube
instintivamente que ele desejava beij-la.
A ideia de ser beijada por ele no a escandalizou. Tampouco lhe pareceu
repugnante como quando pensara que o baro poderia ter feito o mesmo.
"Deve ser no apenas muito excitante, mas tambm romntico ao extremo ser
beijada por um hngaro, na Hungria!", Aletha pensou.
Voltando a olhar para ele, receou que pudesse ler seus pensamentos. Por
breves momentos ambos apenas se fitaram.
- Imagino que voc j tenha percebido que me tortura de modo
insuportvel! Sendo assim, quanto antes voltar para a Inglaterra, melhor!
O prncipe falou to impetuosamente que ela o encarou, atnita. Mas ele
j virava o cavalo e, sem mais uma palavra, galopou para as cavalarias.
Sem hesitar, Aletha cavalgou atrs dele e ambos chegaram quase juntos 
entrada das cocheiras.
O prncipe parou e, tendo esperado Aletha refrear seu animal, desculpou-
se:
- Perdoe-me! Compreenda que s vezes voc me tortura alm do que posso
suportar!
Sem entender a razo daquelas palavras e daquele comportamento, ela
apenas fitou o prncipe, confusa. Ento ele se deu conta de que ela no
tinha ideia do que ele estava falando e disse gentilmente:
- Voc deve me esquecer. Quero que passe momentos agradveis neste
palcio e como suponho que seu av logo se decidir sobre os cavalos que
deseja comprar, ambos partiro. Voc deixar a Hungria para trs.
- Na Inglaterra terei seus cavalos que me lembraro... este pas
maravilhoso - Aletha respondeu, evitando a tempo dizer, como desejava:
"me lembraro... voc", o que seria ntimo demais.
O prncipe Mikls estendeu a mo e, depois de hesitar um pouco, ela
descalou a luva e segurou a mo que lhe fora estendida.
Mal tocou-a, sentiu como se o fulgor de um raio lhe percorresse o corpo
todo. No podia mais negar o que sentia pelo prncipe Mikls: sem dvida
o amava.
Ele tirou o chapu e, curvando-se, beijou-lhe a mo.
Aletha no esperava apaixonar-se, porm no tinha como impedir que, como
uma onda, o amor a arrebatasse, fazendo-a submergir num oceano de emoes
inenarrveis.
Era assim que desejava sentir-se ao lado do homem de seus sonhos e era
evidente que este homem era o prncipe Mikls!
Amara-o desde que o vira no ptio do palcio real, apesar de no se dar
conta disso naquele momento.
O simples contato dos lbios dele na sua mo a fizera estremecer. Notando
mais do que esse tremor, a vibrao que vinha dos corpos de ambos, o
prncipe ergueu a cabea e fitou Aletha longamente.
Ela notou no olhar dele no admirao, mas uma expresso de indescritvel
dor que lhe fugia  compreenso.
Deixando a mo dela e recolocando o chapu na cabea, ele cavalgou na
direo de Herr Hviz e do sr. Heywood, que conversavam no centro do
ptio das cavalarias.
Aletha seguiu-o, desorientada. Desceu do cavalo sem esperar
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 a ajuda de ningum e afastou-se das cavalarias em direo do
palcio, desejando ardentemente que o prncipe logo a alcanasse.
Para desapontamento dela, ele juntou-se ao sr. Heywood e Herr Hviz, que
certamente estavam negociando, pois vrios cavalarios conduzindo cavalos
pelas rdeas davam voltas com os mesmos pelo ptio.
Durante todo o percurso at seu quarto, ela tentou encontrar uma
explicao para o estranho comportamento do prncipe.
Achou at que sabia qual seria a resposta, no entanto no desejava
admiti-la nem para si prpria. Na verdade todo seu ser se recusava a
aceitar o que ela supunha ser a verdade.
Para tranquilizar-se, ponderou que os elegantes, ardorosos e romnticos
hngaros eram homens imprevisveis. Compreendia que no podiam mesmo ser
diferentes do que eram.
Aletha no sentiu vontade alguma de trocar-se e descer. Como havia sido
programada uma festa para a noite, um dos belos sales j devia estar
cheio de convidados e o que menos desejava no estado de nimo em que se
encontrava era manter uma conversao ftil e desinteressante com algumas
ladies.
Todo seu corpo pulsava, ansiando por estar com o prncipe. Decidida, ela
trocou-se e foi para a cama, entrando sob as cobertas.
- Virei cham-la com antecedncia para que tome seu banho com calma,
Fraulein - assegurou-lhe a criada que a atendia, antes de se retirar,
fazendo diante dela uma pequena mesura.
Era interessante notar como as pessoas se comportavam de modo diferente,
levando em conta a posio social daqueles com quem tratavam, Aletha
pensou.
Se ela estivesse hospedada naquele palcio como a filha do duque de
Buclington, teria merecido por parte da criada uma mesura completa; a
governanta tambm faria uma mesura diante dela em vez de apenas inclinar
a cabea, como vinha fazendo.
No que se importasse com tais gestos de subservincia;  que os mesmos
lhe revelavam o que ela j sabia.
Havia uma grande diferena entre ser a filha de um duque e ser neta de um
homem que no tinha meios nem mesmo para comprar seus prprios cavalos.
Havia conhecido o prncipe Jozsel e seus filhos e notara como se
orgulhavam de ser quem eram. Devia admitir que com o duque acontecia a
mesma coisa.
Contudo, talvez na Inglaterra as diferenas entre as pessoas no fossem
to bvias como na Hungria.
Tivera prova disso quando cavalgara com o prncipe Mikls pelos campos e
haviam encontrado os camponeses. Estes saudaram o aristocrata com
profunda inclinao da cabea e sorriram para ele com afeio e respeito,
como se aquele homem, senhor de todas aquelas terras, fosse quase um
deus. Pensando nisso adormeceu.
"Chega a ser infantil de minha parte amar o prncipe", Aletha pensou
enquanto tomava seu banho. "Espero que o que eu esteja sentindo no seja
amor realmente e sim uma empolgao passageira por me achar neste palcio
encantador onde reina uma atmosfera de conto de fada."
Ela no deixou de pensar tambm que aquela atmosfera era perfeita para
envolver o prncipe e faz-lo supervalorizar a atrao que sentia por
ela.
Ficara sabendo que havia 126 cmodos naquele palcio. Ouvira o prncipe
Jozsel dizer, na noite anterior, que o antigo palcio era muito maior e
mais magnificente. O teatro lrico, construdo por seu ancestral, se
incendiara e jamais fora reconstrudo.
Tais pensamentos fizeram Aletha sorrir. No tinha motivos para ficar to
impressionada com o palcio, uma vez que Ling era tambm uma casa
ancestral grandiosa e na verdade muito mais antiga do que o palcio do
prncipe Estrhzy!
Novamente ela riu, agora de si mesma; estava se comportando como uma
criana.
Saindo do banho, Aletha escolheu para vestir seu traje mais lindo. O
vestido era branco e todo bordado com pedrinhas que brilhavam como
diamantes.
A criada a ajudou a vestir-se e, ao terminar, olhando-se ao espelho,
Aletha achou que parecia uma flor em boto, coberta de gotculas de
orvalho.
Ela no quis pr jia alguma. Trazia ao pescoo delicadas
101
flores de tecido semelhantes a orqudeas, tendo pedrinhas diamantinas em
suas ptalas.
As mesmas flores, formando um ramalhete envolto em franzidos de chiffon,
enfeitavam as anquinhas e os cabelos, habilmente penteados pela criada.
To logo a viu entrando no salo, antes do jantar, o prncipe Mikls
susteve a respirao. Vrios outros cavalheiros convidados para o jantar
no esconderam sua admirao pela jovem inglesa.
Um deles chegou a exclamar:
- Creio que nem no passado o palcio Estrhzy hospedou algum com tanta
beleza!
Diante do elogio Aletha limitou-se a sorrir para o cavalheiro, enquanto
sentia o corao saltando no peito, tal sua alegria ao notar a expresso
de raiva do prncipe Mikls.
Evidentemente ele estava com cime! Ah, seria to maravilhoso se ele
tambm a amasse. Mas talvez estivesse querendo demais.
Seu bom senso alertava-a para o absurdo de julgar-se apaixonada pelo
primeiro homem realmente belo que conhecia. Mais absurdo ainda era
esperar que ele tambm se apaixonasse por ela.
"Ah, mas os hngaros so romnticos!", Aletha ficou repetindo
mentalmente.
Era de esperar que adorassem voar de flor em flor, sempre esperando que
no dia seguinte encontrassem uma mais linda ou extica do que a do dia
anterior.
"Devo ser sensata e no me expor a riscos", pensou.
Aletha apreciou cada momento do jantar e pode-se dizer que foi o sucesso
da noite!
 mesa quase todo os homens ergueram um brinde em sua homenagem,
despertando a inveja das outras jovens, que a olhavam com azedume.
Ela tambm aproveitou cada instante daquela noite de sonhos. No ignorava
que ao voltar para Londres seria apenas uma debutante e estas s mereciam
bastante ateno quando eram apresentadas no palcio de Buckingham.
Depois costumavam ser ofuscadas pelas beldades sofisticadas e
experientes, ladies j casadas que mereciam os louvores
e as aclamaes no apenas da sociedade, mas do pblico em geral. Elas
costumavam ser escolhidas pelo prncipe de Gales.
Naturalmente, sendo o duque de Buclington um homem importante na corte,
Aletha seria convidada para bailes e recepes durante toda a temporada
em Londres. Isso acontecia com todas as debutantes filhas de
aristocratas.
"Estou vivendo uma noite gloriosa", Aletha pensou. "Tenho que aproveit-
la ao mximo."
Como o prncipe havia prometido, o baile foi animado por uma orquestra
cigana.
O imenso e magnificente salo de baile, branco e dourado, estava todo
decorado com flores brancas, como as que enfeitavam o vestido de Aletha.
Havia sido naquele mesmo salo, o mais lindo que Aletha j vira, que
Haydn regera a orquestra que apresentara pela primeira vez a sua Sinfonia
da Despedida.
As altas janelas e amplas portas se abriam para os deslumbrantes jardins
do palcio.
Luzes escondidas nas fontes iluminavam os jorros d'gua arremessados em
direo ao cu, mais parecido com um veludo escuro cravejado de
diamantes.
Era a primeira vez que Aletha via e ouvia uma orquestra cigana mas achou
que a mesma era exatamente como a havia imaginado.
As ciganas, com seus trajes tpicos, vivamente coloridos, com brincos
enormes e uma profuso de pulseiras e colares, davam uma nota alegre e
extica ao ambiente.
Algumas ciganas traziam na cabea um leno debruado com ouro e pedras
preciosas; outras tinham os cabelos entrelaados com fitas vermelhas,
igualmente enfeitadas por jias. Elas cintilavam a cada movimento que
faziam.
A msica alegre vibrava no ar, tendo comeado com os sons estridentes dos
cmbalos e dos pandeiros.
Muitos dos convidados executaram, de mos dadas, no centro do salo uma
dana tpica cigana.
Quando a msica tornou-se suave e romntica, o prncipe Mikls enlaou
Aletha pela cintura e conduziu-a para o centro do salo que logo ficou
lotado de pares.
103
Subitamente a msica voltou a ser lacre e vivaz, tendo o frenesi voltado
a tomar conta dos instrumentos ciganos, forando os pares a danarem cada
vez mais rapidamente.
Durante o baile Aletha danou com muitos outros cavalheiros, porm,
apresentando-se a oportunidade, o prncipe Mikls convidou-a novamente
para danar.
Ele trouxe-a para bem perto de si e,  medida que o ritmo se tornava cada
vez mais acelerado, ela o seguia perfeitamente sem nunca ter aprendido
aquele tipo de dana.
A certa altura o ritmo era to alucinado que Aletha sentia como se
estivessem flutuando no ar e danando com seus coraes; seus ps mal
tocavam o cho, era como se tivessem asas.
Foram momentos excitantes e alegres e, quando finalmente a msica parou,
ela estava quase sem flego, seu peito arfava tumultuosamente sobre o
tecido fino do vestido.
Ento Aletha viu-se caindo das nuvens, de volta  realidade.
O prncipe ainda a manteve por um instante em seus braos. Ambos se
fitaram e ela sups ter visto fogo em seus olhos, porm se convenceu de
que era apenas o reflexo das luzes.
Os convidados estavam aplaudindo a msica que tanto os empolgara.
Segurando Aletha pela mo, o prncipe Mikls levou-a para o jardim. Ali
ela inspirou profundamente o ar fresco da noite, procurando acalmar o
tumulto interior.
Dando-lhe o brao, o prncipe passeou com ela pelo gramado macio, pelas
fontes iluminadas, e ambos chegaram a uma estufa de vidro que brilhava
entre as rvores.
Ele abriu a porta e Aletha viu no interior da estufa orqudeas das mais
variadas cores: brancas, roxas, verdes, cor-derosa e amarelas.
Aquele conjunto extraordinrio de flores exticas era to lindo que
Aletha se deixou ficar parada, admirando-as, fascinada.
O prncipe fechou a porta.
- Este  o lugar perfeito para voc - ele disse. - Pensei que talvez voc
pudesse deixar impregnada nas flores um pouco da sua beleza. Ento eu
jamais poderia perd-la.
Timidamente Aletha virou-se para fit-lo. Nenhum homem poderia estar to
belo e to majestoso quanto o prncipe.
Seu traje de noite, impecvel, assentava-se maravihosamente em seu corpo
atltico. No peitilho da camisa branca ele usava uma grande prola.
Aletha no ignorava que, se a ocasio fosse formal e contasse com a
presena da realeza, sua casaca estaria coberta de condecoraes.
Por uns segundos ambos apenas se fitaram, emudecidos. Foi o prncipe quem
rompeu aquele silncio mgico.
- Voc ficar para sempre no meu corao, Aletha! Voc  linda! 
adorvel!
Ela ia responder que tambm o traria no seu corao em todos os momentos,
mas ele acrescentou:
- Trouxe-a para este lugar para lhe dizer adeus.
- Adeus? Mas eu no sabia que vov tinha planos de partir amanh.
- No me refiro  partida de vocs. Sou eu quem partira. Aletha s pde
olhar para ele, perplexa, seus olhos parecendo maiores ainda do que j
eram.
- Estou me flagelando! - O prncipe prosseguiu com veemncia. - No
suportaria esta tortura por mais tempo!
- No estou... entendendo - ela gaguejou.
- Sei disso. Conheo todos os pensamentos desta cabecinha linda, tenho
conscincia de cada batida mais forte do seu corao e at do modo como
voc respira!
O modo de o prncipe falar despertou ainda mais os sentimentos que Aletha
j nutria por ele e num gesto instintivo, leyou a mo ao peito como se
para serenar a agitao interior.
- Amo-a muito, Aletha. Amo-a como jamais amei outra mulher antes.  por
esta razo, amor do meu corao, que tenho que partir.
- Mas... por qu? Por qu? Foge-me  compreenso!
-  claro que uma jovem inocente como voc no compreende. Desejo-a,
quero toma-la em meus braos e lev-la daqui! Ah, minha querida, voc no
imagina como  difcil controlarme para no lev-la para minha casa nas
montanhas, onde ficaramos a ss, sem pessoa alguma que nos perturbasse.
Cada vez mais agitada e dominada por sentimentos estranhos, Aletha ficou
apenas fitando o prncipe, emudecida, sem atinar
com o que ele estava dizendo e ao mesmo tempo pasmada com aquele fogo que
via arder nos olhos dele.
- Se eu a levasse para essa minha casa, adorada Aletha, iria ensinar-lhe
tudo sobre o amor; voc conheceria no o amor frio que um ingls lhe
poderia oferecer, mas o amor ardente e irresistvel da Hungria!
Emocionada diante daquelas palavras arrebatadas do prncipe, Aletha deu
um passo para ficar junto dele, porm, para sua surpresa, ele afastou-se
depressa.
- No se aproxime! - ele exclamou de modo incisivo. No ousarei toc-la!
Se o fizer, por certo no me conterei, a tomarei em meus braos e voc
ser minha! Ento no ter como escapar; no mais a deixarei.
- Ento... voc me ama? - Aletha gaguejou, dando a entender que apenas
deduzira isso depois de tudo o que o prncipe lhe dissera.
- Se a amo? Amo-a loucamente, incontrolavelmente, irremediavelmente! Mas,
minha doce Aletha, minha adorada, nada posso fazer.
- Por qu?
- A resposta  bem simples: voc  pura como estas flores;  inocente,
intocada e virginal. Como eu poderia prejudicar uma criatura to
perfeita?
Aletha continuou a fit-lo, silente. Um raio de luar, incidindo sobre
seus cabelos, tornou-a ainda mais linda, emprestando-lhe uma beleza
etrea.
Como se no suportasse continuar a olhar para ela, o prncipe baixou os
olhos e disse pouco depois:
- Eu no pretendia entrar em detalhes, mas vejo que seria injusto de
minha parte separar-me de voc deixando-a entregue s suas conjecturas
sobre meu comportamento.
- Oh, sim, por favor, explique-me melhor... no compreendi exatamente o
que voc quis dizer - ela pediu, angustiada.
- Confessei meu amor por voc e acredito que ele seja correspondido. Para
mim, am-la e saber que tambm sou amado  estar prximo do paraso.
Porm no ousarei toc-la.
Ao pronunciar as ltimas palavras havia uma nota dolorida em sua voz.
- Por qu? Por favor, diga por que no pode... ficar a meu lado.
- Porque voc  uma lady, minha linda slfide. Se fosse simplesmente uma
jovem comum, cuja famlia fosse como a de Hviz, um homem do povo que
compra e vende cavalos, eu a levaria comigo para minha casa nas
montanhas, querida, e l seramos felizes para sempre.
Compreendendo aonde ele queria chegar, Aletha no teve coragem de dizer
uma palavra. Parecia ter-se tornado uma esttua de pedra.
E o prncipe Mikls completou:
- No seria uma unio legtima e jamais ousaria oferecerlhe isso. Ao
mesmo tempo, por causa de minha famlia, no posso torn-la minha esposa.
Finalmente proferidas, as palavras pareceram ficar retinindo nas paredes
de vidro.
Pareceu estranho para Aletha que elas no se estilhassassem e que as
orqudeas no cassem de suas hastes e se precipitassem no cho.
- Voc conheceu meu pai - o prncipe prosseguiu. - Sendo uma pessoa
perceptiva, no deve ignorar que seria a morte para ele ver seu filho
mais velho tomar como esposa algum cuja estirpe no se igualasse a
nossa.
Ainda paralisada, Aletha sentiu que algo em seu ntimo se partia e que
sua vida chegava ao fim. Ouvia as palavras do prncipe como se viessem de
muito longe.
- Desde o primeiro momento que a vi, soube que voc era especial, era
diferente de todas as mulheres que eu j vira e conhecera antes. Ali na
balaustrada do palcio real a vi circundada por uma luz branca e disse a
mim mesmo que tinha a minha frente a criatura mais adorvel que poderia
existir! - O prncipe levou as mos aos olhos. - Fiquei sem dormir, senti
sua presena em toda parte, cheguei a crer que estava sendo perseguido
por uma viso. Ento a vi novamente e naquele instante fiquei louco de
felicidade. Voc estava ali e era real! - A voz dele tornou-se mais
profunda. - Ento nada mais pareceu ter importncia para mim, a no ser
esperar que a pudesse ter em meus braos para beij-la at que ambos s
tivssemos conscincia de que s nosso amor existia e que era to grande
quanto irreprimvel.
Era um sofrimento para Aletha saber que tambm havia desejado tudo
aquilo.
- Quando samos para cavalgar, vi que voc era a amazona mais perfeita
que eu j vira. Confesso que voc cavalga como a nossa imperatriz, mas
isso no vem ao caso.
Voltando a fitar Aletha, ele falou com enlevo na voz:
- O que me atraiu em voc no foi apenas sua incrvel beleza, mas tambm
algo divino que parece cerc-la como uma aura; h uma luminosidade ao seu
redor! Sempre sonhei que assim seria a mulher que se tornaria minha
esposa; confesso que cheguei a me convencer de que jamais a encontraria.
Aletha queria poder gritar que tambm sentia tudo aquilo a respeito dele,
e suplicar-lhe que no destrusse algo to belo e perfeito como o amor
que existia entre ambos, porm as palavras no vieram aos seus lbios.
- Desejo casar-me com voc mais do que a prpria salvao de minha alma.
Mas sei que meu desejo no deve se concretizar. Seramos felizes enquanto
estivssemos sozinhos, mas no convvio com os outros seramos condenados
a viver num inferno. Sabe como  cruel o mundo em que vivemos. - Ele
inspirou fundo. - Minha famlia jamais me perdoaria por ter feito uma
mesalliance. E voc seria a maior vtima: ferida centenas de vezes por
dia, fosse com palavras, gestos de desprezo ou at mesmo por saber
simplesmente o que as pessoas estariam pensando. Mesmo contando com a
minha proteo, no se sentiria feliz. Gradualmente, como a gua batendo
continuamente numa pedra, uma situao assim destruiria o nosso amor.
O prncipe Mikls ficou muito ereto e pareceu ainda muito mais majestoso
e alto do que era.
- Agora compreende por que tenho que partir amanh? Jamais voltaremos a
nos ver, luz de minha vida.
Era to tocante a nota de desespero em sua voz que Aletha pensou em
confessar-lhe toda verdade a seu respeito. Isso afastaria de vez a
infelicidade que via estampada no rosto de Mikls.
Todavia, a questo era delicada e ela concentrou-se para tentar
encontrar as palavras certas. Nesse nterim, porm, o prncipe despediu-
se:
- Adeus, adorvel slfide. Peo a Deus que a proteja e que lhe permita um
dia encontrar um homem que a ame to intensamente quanto eu e que prefira
morrer a mago-la.
Ele fitou-a docemente e, em seguida, ajoelhando-se, ergueu a bainha de
seu vestido e beijou-a, para espanto de Aletha.
Assim que ele se ergueu, ela conseguiu dizer numa voz que nem parecia a
sua:
- Mikls, espere... tenho algo a lhe dizer...
Mas ele j se afastara e desaparecia nas sombras, deixando aberta a porta
da estufa e Aletha de p, seguindo-o com o olhar.
Erguendo as mos, ela levou-as aos olhos.
Aquilo tudo teria mesmo acontecido? Teria ouvido o prncipe confessar-lhe
seu amor? Contudo ele no se casaria com ela.
"Tenho que lhe dizer que ele est enganado. Se eu lhe contar a verdade,
sua famlia me aceitar. Ento seremos felizes! "
Ela chegou a ir at a porta, pensando em correr atrs de Mikls e
esclarecer tudo. No entanto, um orgulho que ela nem julgava possuir
impediu-a de dar mais um passo para fazer o que lhe passara
impulsivamente pela cabea.
Se ele era to perceptivo e se podia at saber o que ela pensava, como
dissera ainda h pouco, por que no se dera conta de que mentira sobre
sua verdadeira identidade?
Porque ele no percebera que, em questo de estirpe, o sangue dela era
to azul quanto o dele.
Mikls devia saber intuitivamente que o tempo todo ela havia fingido e
que no era a pessoa por quem estava se fazendo passar.
Durante quanto tempo ficou parada, tendo as orqudeas ao seu redor e o
luar sobre sua figura, Aletha no saberia dizer.
Finalmente teve conscincia de que devia voltar para o castelo. Foi
caminhando sob as rvores, sem pressa, como se vivesse um sonho.
Ocorreu-lhe que o sonho que alimentara sobre seu "prncipe encantado"
havia terminado.
"Se Mikls estivesse mesmo to apaixonado e to ligado a
mim, teria dado importncia a mim como pessoa, fosse eu quem fosse, e
minha rvore genealgica no teria a menor importncia."
Ao chegar ao palcio, Aletha no quis voltar ao salo de baile, de onde
vinha o som da orquestra cigana e de risos.
Entrando por uma porta lateral, ela subiu para seu quarto e, sem tocar a
sineta para chamar a criada que costumava atendla, ela comeou a despir-
se lentamente com os dedos rgidos, os quais nem pareciam lhe pertencer.
O vestido no tardou a ficar ali cado sobre o cho, como uma suave nuvem
branca, as pedras brilhando como gotculas de orvalho. Decidiu que no o
usaria nunca mais.
Ao remover as flores e os grampos do cabelo, este lhe caiu sobre os
ombros desnudos.
Depois do que lhe pareceu um longo tempo, Aletha viu-se j trocada e sob
as cobertas. Apagou as velas e, na escurido do grande aposento, sentiu
as lgrimas quentes molhando-lhe as faces.
Escondendo o rosto no travesseiro, tentou sufocar os soluos de
desespero. No apenas perdera Mikls, a quem entregara o corao, mas
tambm tivera destrudo seu sonho mais caro!

CAPTULO VII

Desalentada, Aletha chorou at a exausto. Ficou acordada pensando em
como seu castelo de sonhos rura completamente.
Nunca lhe ocorrera que o homem de seus sonhos no a amasse por si mesma.
O que havia acontecido fora exatamente o oposto do que esperara.
Na Inglaterra, seu pai se mostrara to preocupado porque sua nica filha
talvez viesse a se casar com um caa-dotes que no a amasse e a
escolhesse para esposa apenas por sua condio de filha de um dos homens
mais ricos e importantes do reino.
Na Hungria, o prncipe Mikls no a considerava  altura da famlia
Estrhzy e no a amava o bastante para lutar contra os preconceitos
existentes.
Como uma criana muito magoada, tudo o que Aletha queria era voltar para
casa. Se pudesse, deixaria a Hungria naquele exato momento.
Voltar para Ling significava ter o conforto de tudo que lhe era familiar.
Sonhara tanto com a Hungria e no negava que conhecera nesse pas emoes
jamais sentidas antes. Havia conhecido o amor; um amor que falava  alma
e por essa razo tinha algo de divino.
"Tenho que partir", disse a si mesma com convico. "Partirei a despeito
do que o sr. Heywood diga."
Ocorreu-lhe que com o administrador ela no teria problemas; sendo um
homem prtico e ativo, o sr. Heywood por certo j teria escolhido os
cavalos que desejava e as negociaes deviam estar em fase de concluso.
Feito o pagamento, bastava acertar com Herr Hviz o transporte dos
animais para a Inglaterra.
111
"Logo pela manh vou procur-lo e dizer-lhe que partiremos o quanto
antes."
Assim pensando, Aletha levantou-se e afastou as cortinas. Ainda estava
escuro l fora, mas as estrelas j perdiam seu brilho.
Pacientemente ela ficou  janela esperando que os primeiros sinais do
alvorecer tingissem de prpura o horizonte.
Quando isso aconteceu, achou que ainda era cedo demais para ir acordar o
sr. Heywood.
"Vou cavalgar um pouco", Aletha decidiu.
Cavalgaria pela ltima vez na Hungria, despedindo-se do pas. Depois
disso se empenharia em esquecer os galopes pelas pradarias bem como as
loucas emoes que o prncipe Mikls despertara nela e que jamais
voltaria a sentir.
De volta  Inglaterra, no se importaria se tivesse um casamento
convencional com o marido que o pai achasse conveniente para a nica
filha.
com amargura Aletha lembrou-se de que bastaria revelar sua verdadeira
identidade e tudo mudaria entre ela e Mikls.
Porm, se fizesse isso, jamais confiaria no amor dele; no poderia ter
certeza se ele a amava por ela mesma.
"J eu o amaria ainda que ele fosse um daqueles camponeses que vi ontem
voltando do trabalho nos campos. Tambm me casaria com ele e viveria
feliz numa casinha simples, cuidando dele e de nossos filhos."
De nada lhe adiantaram as fantasias. Sua vinda para aquele pas fora uma
iluso e podia at dizer o mesmo daquele palcio, onde tudo era
magnfico, perfeito, mas quimrico. No desejaria construir ali um futuro
sem amor.
O prncipe Mikls lhe falara de um amor eterno e irreprimvel; porm,
foram palavras apenas. Como podia sentir algo to maravilhoso e no ter a
coragem necessria para lutar pela mulher amada?
"Tenho que partir!", pensou cheia de mgoa.
Era tamanha sua angstia que no suportava mais ver-se confinada nas
paredes daquele palcio cujo teto tambm abrigava o prncipe Mikls.
Iria cavalgar imediatamente e ao voltar talvez tivesse a notcia da
partida dele. Sofreria a princpio s de pensar que nunca mais o veria,
porm iria pedir em suas oraes para esquec-lo.
J usando uma blusa fina e a saia de montaria, Aletha apanhou o
casaquinho que completava o conjunto, porm hesitou em vesti-lo. No dia
anterior fizera calor e aquele dia prometia ser ainda mais quente.
O exerccio a aqueceria ainda mais, portanto o casaquinho era
perfeitamente dispensvel, sem contar que no se encontraria com ningum
quela hora da manh.
Ela prendeu os cabelos firmemente, formando um coque e tambm dispensou o
chapu. Estava pronta; ento deixou o quarto e desceu sem fazer barulho
uma escada secundria para evitar ser vista pelo criado da noite que
ainda se achava em servio no hall.
Passando por um espelho, notou sua palidez, as olheiras e os olhos
parecendo ainda maiores e marcados pela mgoa.
No peito sentia que uma centena de setas lhe atravessavam o corao.
Sem dificuldade alcanou a porta por onde j havia passado com o
prncipe, a caminho das cavalarias.
L fora a manh estava encantadora; o sol brilhava, tingindo tudo de
dourado. Era cedo demais para Herr Hviz andar por ali, e Aletha
encontrou nas cavalarias apenas um rapaz que ficara encarregado do turno
da noite.
Ela pediu a esse cavalario que lhe selasse Nyul, o cavalo cinzento que
havia montado no dia de sua chegada ao palcio.
Quando Nyul j estava selado e ela ia mont-lo, chegou um outro
cavalario e perguntou-lhe, em hngaro, se desejava que ele lhe fizesse
companhia.
Aletha conhecia pouco o idioma, porm o suficiente para responder ao
rapaz que ia passear ali por perto e que preferia cavalgar sozinha. -
Apesar de surpreso, o rapaz no discutiu, o que Herr Hviz teria feito,
alegando que no convinha a uma moa cavalgar desacompanhada.
Deixando o ptio das cavalarias, ela tentou esquecer todas as suas
angstias para concentrar-se apenas no seu passeio naquele espetacular
animal.
- Agora no quero saber de mais nada, Nyul, a no ser de voc - ela disse
afagando o animal, j passando pelos paddocks para alcanar a campina.
O sol j despertara as borboletas, que esvoaavam inquietas sobre as
flores e que  aproximao da amazona e seu cavalo fugiam espantadias e
esquivas.
Da mesma forma, os pssaros assustados com a intruso em seus domnios
subiam vertiginosamente rumo ao cu.
Nyul, um animal novo e quela hora bem descansado, por certo estava
apreciando galopar  rdea larga, fazendo Aletha sentir-se voando.
O vigoroso galope no impetuoso animal foi um timo remdio para suavizar
o peso que Aletha sentia no peito. A beleza da campina ao seu redor
tambm contribuiu para afastar a escurido que pairava sobre sua alma.
Entregue ao prazer de cavalgar, ela afastou-se bastante do palcio.
Subitamente, a distncia, divisou dois cavaleiros e ambos galopavam em
sua direo, o que lhe pareceu uma intromisso, visto ela estar sozinha e
sentir-se no momento dona daqueles domnios.
Quando refreou um pouco a montaria, pretendendo voltar para as
cavalarias, reconheceu, sofrendo um choque, que um dos cavaleiros era o
baro Von Sicardsburg.
Ele montava um grande garanho, o qual, ela se lembrava, era o mais
espetacular entre os que vira nas cocheiras do castelo. O cavalario que
acompanhava o baro tambm montava um excelente animal.
Aborrecida, Aletha disse a si mesma que, se havia algum que jamais
queria ter o desprazer de encontrar novamente, esse algum era o baro, e
ele, sem dvida, j a reconhecera.
A distncia que a separava dos dois cavaleiros era relativamente grande,
mas ela percebeu que o baro dissera qualquer coisa ao cavalario, o qual
se afastou do amo. Este aoitou seu garanho com violncia, fazendo-o
disparar.
A intuio de Aletha lhe disse que ela corria perigo. Ento compreendeu
imediatamente o que estava acontecendo: o baro vinha na direo dela por
um lado e o cavalario pelo outro, de forma a tentarem cerc-la.
Para no ficar  merc daquele homem repugnante, Aletha no perdeu um
segundo. Fustigou Nyul para voltar a galope para casa.
Nyul quase voava, porm ela percebeu que se havia afastado do palcio
muito mais do que pretendia.
A certa altura Aletha olhou para trs e viu que seu principal perseguidor
ganhava terreno e cavalgava bem inclinado para a frente, num estilo de
jquei, para alcan-la ainda mais rapidamente.
S de pensar no perigo que corria se casse nas mos do baro,
estremeceu. Iria levar muito tempo para que o sr. Heywood ou outra pessoa
no palcio descobrisse o que lhe havia acontecido.
"Oh, meu Deus, me ajude! Venha em meu socorro!", ela orava enquanto ouvia
os cascos do garanho logo atrs.
Nyul certamente fazia o melhor possvel, mas j devia estar cansado
quando Aletha avistara o baro. Agora ela cavalgava como jamais o fizera
em sua vida, pois sabia que seu perseguidor era implacvel e em pouco a
alcanaria.
De uma coisa tinha certeza: preferia a morte a ficar em poder daquele
homem horrvel.
O prncipe Mikls tambm no conseguira dormir.
Tendo deixado Aletha entre as orqudeas, na estufa, ele caminhou a esmo
pelas alias do jardim, querendo distncia do som da msica e do riso.
O que fizera com Aletha e o fato de ver-se forado a partir para no
voltar a v-la iriam atorment-lo pelo resto da vida.
Mas sua educao fora rgida, e ele crescera ouvindo falar em tradio,
patrimnio, linhagem, respeito aos ancestrais, orgulho, bravura.
Seu pai lhe repetia, desde a infncia, que este devia aceitar de boa
vontade todos aqueles valores, embora isso lhe custasse verdadeiros
sacrifcios.
Como filho mais velho, sua responsabilidade era ainda maior.
115
No poderia desapontar, muito menos envergonhar, os ancestrais ou seus
sucessores.
Quando criana, Mikls no compreendia exatamente o que as palavras to
pomposas e severas do pai queriam realmente dizer. J rapazinho, se deu
conta de que seus deveres perante a famlia eram muito mais importantes
do que seus prprios desejos.
Na escola havia estudado arduamente. Tinha de ser inteligente e aplicado
como o fora seu pai, uma vez que se preparava para herdar o principado e
a famlia devia ter orgulho dele.
Como no podia deixar de ser, houvera mulheres em sua vida. To logo o
jovem Mikls teve idade para isso, passou a ser perseguido por elas, que
tornaram-se indispensveis em sua vida.
Todavia seus romances eram apenas em nvel fsico e Mikls as considerava
fascinantes. Mas seu senso crtico jamais lhe permitira ver qualquer uma
das mulheres com quem mantivera um caso  altura de merecer a posio de
esposa de um nobre importante como ele.
Sua me pertencera  realeza e amara o marido e a famlia mais do que
tudo no mundo, e Mikls desejava encontrar para esposa uma mulher nos
moldes da me. Esta era para ele a imagem da mulher ideal.
At o momento, sempre encontrara falha nas mulheres que havia cortejado e
jamais amara nenhuma delas como estava amando letha. Sabia tambm que,
se a perdesse, o que estava prestes a acontecer, jamais amaria algum com
tal intensidade.
Desde o primeiro instante em que a vira, teve conscincia de que um era
parte do outro. Vira-a circundada por uma aura, uma luz divina.
Acabara recebendo-a em seu palcio e sempre que esteve em contato com
ela sentia que lhe podia ler os pensamentos e saber o que ela estava
sentido. Sem dvida aquela era a mulher de sua vida, a mulher que lhe
fora enviada por Deus.
Mesmo o sacramento do matrimnio no os uniria mais do que suas almas j
se achavam unidas, num plano de predestinao.
Tudo isso era o que o corao e a sensibilidade de Mikls lhe diziam,
porm seu crebro lhe ordenava que no propusesse casamento a uma mulher
cujo av era um simples empregado do duque de Buclington.
Afinal, ele era Mikls Estrhzy! Levava o nome do ancestral que havia
construdo aquele palcio. Desde ento a famlia Estrhzy patrocinara os
maiores msicos, pintores e os mais brilhantes crebros do pas, que
vinham a Fertod e, de uma forma ou de outra, sempre serviram a famlia.
"Ser servido" eram palavras bem prprias para um bsterhazy. Franz Joseph
Haydn podia ter sido o maior msico de sua poca, porm era fora de
questo que ele pudesse pensar em se casar com uma Estrhzy.
O mesmo se aplicava a outros artistas, arquitetos, escritores, poetas ou
pintores. Todos eram bem-vindos, mas apenas para "servir" a famlia e no
para fazer parte da mesma.
Podia-se dizer que as mulheres que levavam o nome Estrhzy eram ainda
mais orgulhosas e mais implacveis do que os homens. Mikls tinha certeza
de que no haveria uma delas inclusive sua irm Misina, que aceitasse
Aletha como uma igual. Em tais circunstncias, como poderia ele encontrar
tranquilidade no palcio se se casasse com Aletha? E ambos teriam que
viver ali. Era ali a sede de seu principado.
No futuro, ele seria o chefe de todos aqueles que levavam o nome da
famlia e teria que ser to digno e orgulhoso de suas tradies como o
haviam sido seus ancestrais.
Os Estrhzy haviam construdo um principado dentro de um imprio e todos
se curvavam diante do imperador; porm, Mikls sabia que, intimamente, um
Estrhzy se considerava superior a um austraco.
Quando finalmente o prncipe Mikls voltou para o palcio, ali reinava
absoluto silncio. A msica cessara e os convidados haviam partido; nas
janelas no se viam luzes.
Em seu quarto ele afastou as cortinas e ficou  janela como se precisasse
de mais ar para continuar respirando. No querendo se trocar para ir
dormir, apenas tirou a casaca.
Depois sentou-se numa poltrona, manteve a cabea entre as mos, entregue
a um sofrimento que nunca havia experimentado em sua vida.
Ao romper do dia, teve conscincia de que devia partir para
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no ver Aletha. S de pensar nisso sentiu o sangue pulsando nas tmporas.
Todo seu corpo o impelia para ela; devia ir procur-la e lev-la consigo
para sua casa nas montanhas.
Ela lhe pertenceria e ambos viveriam gloriosa e idilicamente felizes.
Entretanto, sempre havia o amanh. E num futuro que um dia chegaria,
teria que abandon-la e jamais seria perdoado.
Tocando a sineta, o prncipe aguardou a chegada do valete e to logo o
viu entrando no quarto ordenou-lhe que preparasse a bagagem e que fosse
pedir a um criado que lhe trouxesse o desjejum no quarto.
A vontade de Mikls era no ver ningum para evitar explicaes ou ter
que responder a perguntas.
Depois do banho vestiu-se e ficou  janela com o olhar perdido voltado
para o jardim, porm alheio ao encanto do mesmo.
Da janela era possvel divisar a campina onde ele havia cavalgado com
Aletha. Entre a campina e os jardins erguia-se um muro muito alto que
cercava todo o palcio.
A ateno de Mikls foi atrada para trs cavaleiros galopando, porm
ainda estavam muito longe, mais parecendo pontos escuros. Era de
estranhar que se dirigissem para o palcio. Quem seriam eles?
Imerso em sua infelicidade o prncipe ficou olhando vagamente para os
cavaleiros que se aproximavam cada vez mais.
Subitamente, sem poder acreditar no que via, reconheceu Nyul, seu
magnfico cavalo cinzento, montado por Aletha. Esta, inclinada sobre o
animal, o incitava a avanar ainda mais rapidamente.
Achando muito estranho aquele galope desenfreado, Mikls quis entender o
que poderia estar acontecendo e olhando para os outros dois cavaleiros
reconheceu o que se aproximava de Aletha.
Definitivamente, aquele era o baro Otto von Sicardsburg, montado em seu
garanho negro do qual tanto se vangloriava.
Nesse instante, quase como se ouvisse Aletha gritando por socorro, teve
certeza de que ela estava amedrontada. Obviamente o baro a perseguia e
no era preciso ser arguto para saber quais eram exatamente suas
intenes.
Num mpeto, Mikls desejou amaldioar aquele homem desprezvel e
atrevido, e ao mesmo tempo salvar e proteger Aletha.
O baro ganhara terreno e j se encontrava bem prximo de sua vtima, que
no tinha por onde escapar. A sua frente, nada mais havia seno o alto
muro que circundava o palcio.
Numa frao de segundo, Mikls compreendeu o que Aletha pretendia fazer e
sentiu-se como se estivesse diante de um peloto de fuzilamento.
Cnscia da proximidade do seu perseguidor, Aletha no quis tomar a
direo das cavalarias, certa de que seria alcanada por ele ou pelo
cavalario que a cercava do outro lado.
Ser alcanada por qualquer um dos dois significava estar nas mos do
baro e ser levada para seu castelo.
"Salve-me... Oh, meu Deus... Salve-me!", ela pedia com fervor e
desespero.
O alto muro que se erguia logo mais  frente era sua nica chance de se
salvar. Aletha no hesitou, embora jamais tivesse praticado saltos com
Nyul e soubesse que riscos cavalo e amazona corriam ao tentarem transpor
um obstculo to alto e slido quanto aquele.
Falando com Nyul para incentiv-lo, esperou que o soberbo animal a
compreendesse; preparou-o e investiu.
Por incrvel que pudesse parecer, Nyul, num salto fantstico, transps o
muro, sua patas pretas no o tocando por questo de um ou dois
centmetros.
Aletha teve certeza de que havia sido ajudada por Deus e pelos anjos.
Tambm ficou emocionada diante da bravura de Nyul. Um cavalo comum jamais
teria realizado uma faanha como aquela.
Felizmente o animal cara num canteiro e apesar de cambalear um pouco
recobrou o equilbrio e parou, completamente exausto e molhado de suor.
Aletha ainda se manteve na sela, quase desanimada devido ao esforo e 
tenso. Por um instante fechou os olhos e se deixou ficar, inclinando a
cabea sobre o peito.
O galope alucinado soltara seus cabelos, que lhe caam sobre
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os ombros, numa nuvem dourada. As rdeas estavam soltas, ela segurava
apenas na sela.
Subitamente sentiu que o mundo ia desaparecer, porm uns braos fortes
tiraram-na da sela. Uma voz que parecia vir de muito longe estava
dizendo:
- Minha querida! Minha doura! Como se arriscou a fazer um salto to
perigoso? Cheguei a temer que acabasse com a prpria vida!
Sem ter foras para responder, Aletha deixou-se ficar, exausta, nos
braos do prncipe Mikls, a cabea repousada em seu ombro.
Abaixando-se, ele colocou um joelho no cho e manteve-a bem perto de seu
corpo. A fora daqueles braos e o clido aconchego disseram a Aletha que
ela estava em segurana.
Mikls fitou-a e, ao notar-lhe a palidez, os olhos fechados e os cabelos
soltos, uma onda avassaladora de paixo irrompeu dentro de seu peito.
com impetuosidade, beijou-lhe a testa, os olhos, as faces, os lbios,
exultando porque ela estava viva.
Para Aletha era como se tivesse sado de um inferno de sombras e temores
e entrasse num cu radioso, pleno de felicidade. Mas no conseguiu abrir
os olhos e deixou-se ficar como que flutuando num oceano de abandono e
esquecimento.
Tinha, no entanto, conscincia daqueles beijos febris e possessivos que a
mantinham cativa. Ento, uma chama tremeluziu dentro de seu corao e
Aletha soube que o amor que julgara perdido renascera.
- Cheguei a pensar que a havia perdido, meu sublime amor.
Havia uma nota to pungente de agonia na voz dele que Aletha abriu os
olhos e viu o rosto do prncipe bem junto do seu. Logo entendeu que ele
padecera terrivelmente, receando que ela sofresse um acidente fatal.
Aletha quis dizer algo, mas seus lbios mal se abriram e ela se viu
sufocada por uma torrente de beijos.
Momentos depois Mikls levantou-se com vagar e muito delicadamente a
colocou de p.
- vou carreg-la para o interior do palcio - ele disse. Como se no
conseguisse se controlar, ele voltou a beij-la.
Aletha correspondeu quele beijo ardente e apaixonado, sentindo a chama
crescer dentro do peito, para ento se espalhar com a fora de labaredas
que percorriam todo o corpo e vinham queimar-lhe os lbios.
com voz enternecedora, Mikls deu a prova de amor que Aletha tanto
esperava:
- Voc  minha! Minha completamente! S agora compreendi que no posso
viver sem voc! Quero torn-la minha esposa. Quando aceitar se casar
comigo, adorada?
Ela o fitou, atnita.
- Est mesmo querendo se casar comigo? - ela indagou num murmrio.
Era a primeira vez que Aletha falava desde que Nyul transpusera o muro.
- Quero que seja minha esposa, nem que eu precise lutar contra o mundo
inteiro!
Era maravilhoso ouvir aquelas palavras que a faziam acreditar no amor que
Mikls lhe devotava! Ento fechou os olhos enquanto ele a tomava nos
braos e a carregava para o interior do palcio. Ento Aletha perguntou
numa voz sumida:
- Voc me ama?
- Muito, muito. Nada mais importa a no ser voc! - Mikls respondeu e
beijou-lhe a testa suavemente. - Sei que no ser fcil, mas o amor, e
mais que isso, a adorao que sinto por voc me daro foras para superar
todos os obstculos. Nada pode ser mais importante do que o nosso amor.
- Nada... - Aletha murmurou.
Ao entrar no palcio, ele colocou-a no cho, mas continuou com o brao ao
seu redor para ampar-la.
Tendo sbita conscincia do seu desalinho, dos cabelos cados descuidados
sobre os ombros, ela pediu numa voz quase inaudvel:
- Por favor, no quero que me vejam assim.
Mikls sorriu e, compreendendo aquela preocupao to feminina, conduziu
Aletha para uma das muitas salas de estar, pequenas, porm lindas e
acolhedoras, que havia no andar trreo do palcio.
Ali, todos os quadros eram obras de arte pintadas por mestrs
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franceses como: Bucher, Fragonard e Greuze. A moblia tambm era
francesa.
- No h ambiente mais propcio para eu lhe falar do meu amor, querida -
Mikls foi dizendo ao abraar Aletha. - Amo voc como jamais amei outra
mulher. Voc  tudo para mim!
Levando-a depois para um sof, acalentou-a e manteve-a aconchegada em seu
peito, como se fosse uma criana. S instantes mais tarde voltou a beij-
la arrebatadamente, com desejo e delrio.
Ambos se viram transportados para regies etreas, esquecidos de que
havia o mundo abaixo deles.
Bem mais tarde, apesar de Mikls e Aletha no terem falado muito, era
como se tivessem dito muita coisa um para o outro. Mas no havia
necessidade de explicaes. Bastava saber que se amavam e s o amor era
importante.
- Como voc  capaz de me fazer sentir estas emoes? Mikls indagou com
ternura na voz.
- O que est... sentindo? - Aletha perguntou apenas pelo prazer de ouvi-
lo traduzir suas emoes em palavras.
- Voc me faz vibrar e viver sensaes que jamais experimentei antes. Mas
tambm nunca amei mulher alguma como a amo-a!
- Nada  mais maravilhoso do que ouvi-lo dizer isso! E pensar que ontem 
noite me senti to infeliz...
- No quero que pense no que aconteceu ontem  noite!
- Mikls falou impetuosamente. - Eu estava louco, fora de mim, pensando
que poderamos viver separados! - Novamente havia fogo em seu olhar. -
Voc  minha e matarei o homem que tentar toc-la!
- Eu imagino que o baro pretendia me levar para o castelo como sua
prisioneira.
- Quase que voc morre para escapar daquele desclassificado!
A nota de horror na voz de Mikls comoveu Aletha.
- Mas estou viva e... com voc.
- Est, sim, adorada, e agora vou tomar as providncias para que nos
casemos o quanto antes! - Ele ergueu-se. - No
quero mais perder tempo. Vamos ver meu pai e comunicar-lhe que
tencionamos nos casar imediatamente! Nada do que ele ou qualquer outra
pessoa possa pensar ou dizer ter o dom de impedir que voc seja minha
esposa.
Aletha ficou olhando para ele, perplexa. Ia contar-lhe seu segredo e
chegou a sentir as palavras prestes a serem proferidas dos seus lbios
trmulos quando Mikls voltou a beij-la.
Ento seu segredo morreu-lhe na garganta.
Assim que Mikls a libertou de seus braos, Aletha viu de relance sua
imagem num espelho de moldura dourada, ficando horrorizada com seu
aspecto.
- Devo ir primeiro me trocar e arrumar-me - ela disse depressa. - Depois
tenho algo muito importante para lhe contar.
- Todos j devem ter terminado o desjejum - Mikls observou, dando uma
olhada no relgio. - Papai deve estar sozinho lendo a correspondncia.
Portanto v depressa, caso contrrio perderemos a oportunidade de ver
papai a ss para contar-lhe sobre nosso amor e nossos planos.
No desejando ser vista por ningum antes de estar arrumada, Aletha
permitiu que Mikls a levasse at seus aposentos por uma escada
secundria.
- Voltarei para busc-la em dez minutos, meu amor - ele prometeu ao
deix-la  porta do quarto. - Seja rpida! Receio ter que me separar de
voc ainda que por um minuto!
- Pode ter certeza de que me encontrar aqui quando voltar - ela
asseverou-lhe com um sorriso.
Ligeira, Aletha entrou no quarto antes que Mikls, no se contendo, a
tomasse em seus braos novamente e voltasse a beij-la.
Tocou a sineta e quando a criada chegou j a encontrou lavada e sem a
roupa de montar. Foi s ajud-la a vestir um dos seus mais lindos
vestidos e pentear-lhe os cabelos.
Ouvindo uma batida  porta, Aletha soube que era Mikls e foi ela mesma
correndo atender. com dificuldade no se atirou nos braos dele.
- Estou pronta! - ela disse ofegante.
- Est adorvel!  to grande minha ansiedade que estou determinado a nos
casarmos esta noite ou, mais tardar, amanh.
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Quando ia protestar, alegando que isso no seria possvel, um criado
passou por eles pelo corredor e Aletha ficou silente, desceu a escada e
deixou a revelao para depois.
Para alcanar o escritrio do pai, Mikls conduziu Aletha pelo hall e
depois por um corredor, em seguida abriu uma porta.
Entrando no amplo escritrio decorado com sobriedade e bom gosto, Aletha
se sentia feliz. Era como se o mundo todo cantasse. Mikls a amava por
ela mesma, sem ao menos suspeitar de que ela era filha de um duque.
Tambm no precisava recear um confronto com Sua Alteza, o prncipe
Jozsel, pois assim que revelasse sua verdadeira identidade ele se
orgulharia de receb-la no seio de sua famlia.
Subitamente Aletha sofreu uma grande decepo. Sua Alteza no se
encontrava sozinho e nesse caso Mikls teria que adiar a conversa com o
pai.
De p, junto  janela, se achavam o prncipe Jozsel e outro cavalheiro.
Os dois se viraram e Aletha sufocou um grito. O homem alto, elegante e
distinto ao lado de Sua Alteza era seu pai.
- Papai! - Sua voz ecoou pelo cmodo. Impulsivamente, Aletha correu para
o duque e se atirou em
seus braos.
- Voc est aqui, papai! Como ... possvel? Por que veio para a Hungria?
Aletha falou tumultuadamente e o pai abraou-a com carinho. Ento
respondeu:
- O rei da Dinamarca se encontrava doente e todas as festividades foram
canceladas. Voltei para casa e fiquei sabendo que minha filha traquinas
havia fugido!
Aletha susteve a respirao.
- Voc... ficou muito zangado?
- Muito. Mas tinha certeza de que James Heywood tomaria conta de voc. S
no imaginava que alm da incumbncia de comprar cavalos para mim ele
tivesse que desempenhar o papel de seu av!
O brilho divertido que Aletha viu nos olhos do pai tranquilizou-a; o
duque no ficara realmente zangado com sua aventura.
Ao olhar para Mikls, notou sua expresso de assombro. Estendeu-lhe a
mo, que ele segurou.
- Era este o meu segredo... Eu lhe disse que tinha algo importante para
lhe contar - falou timidamente, receando que Mikls se zangasse por ter
sido enganado.
Mas ele respondeu ainda sem estar completamente recuperado do espanto:
-  mesmo verdade que voc  filha do duque?
-  a pura verdade - o duque respondeu antes que a filha pudesse falar.
- J apresentei minhas desculpas ao prncipe Jozsel por minha filha t-
los enganado.
-  claro que compreendo a atitude de lady Aletha - o prncipe Jozsel
disse. - Foi um modo inteligente que encontrou para justificar o fato de
estar viajando sem uma chaperon.
- Bem, agora cuidarei de minha filha - o duque asseverou para que no
houvesse mais comentrios sobre a travessura de Aletha.
Dando esse assunto por encerrado, ele dirigiu-se ao prncipe Jozsel:
- Agora, Alteza, me daria o prazer de ver pessoalmente os cavalos que j
foram selecionados para mim?
- Sim. E,  claro, poder mont-los - o prncipe Jozsel acrescentou,
amavelmente.
Antes que todos sassem do escritrio, Aletha comunicou:
- O prncipe Mikls tem algo a dizer que  muito mais importante do que
cavalos.  muito bom voc estar aqui, papai.
O duque estendeu a mo para o prncipe Mikls.
- Eu j havia imaginado que voc era o filho mais velho do prncipe
Jozsel.  um grande prazer conhec-lo.
- Como Aletha acaba de dizer, Alteza, tenho algo muito importante para
pedir-lhe: desejo que me conceda a mo de sua filha!
Aletha ficou algum tempo admirando a paisagem, achando que nada poderia
ser mais belo ou mais convidativo.
A casa em que se achava ficava no alto da montanha, bem acima do vale por
onde corria, cortando a campina, um rio coleante cujas guas cintilavam 
luz do sol.
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Do lado oposto quele em que Aletha se achava, erguia-se, muito ao longe,
uma cadeia de altas montanhas.
A casa de Mikls era o refgio que ele possua nas montanhas. Apesar de
pequena, tinha todo conforto, era agradvel e encantadora.
Os recm-casados chegaram ali na noite anterior, j bem tarde, e, ao
acordar, naquela manh, Aletha sentia-se no cu.
- Est acordado h muito tempo? - ela havia perguntado ao despertar.
- Achei difcil conciliar o sono - Mikls respondera numa voz profunda. -
Nem podia acreditar que a tinha ao meu lado e que estvamos realmente a
ss.
- Cheguei a imaginar que aquela festa e todos os votos de felicidade
jamais terminassem - Mikls comentara. - Eu no via a hora de t-la
comigo, assim, como estamos agora, sem ningum para nos perturbar. Agora
posso lhe falar do meu amor desde a manh ao anoitecer.
Aletha havia sorrido para o marido.
- Oh, querido, eu tambm ansiava por estar ao seu lado... mas no podia
imaginar que voc iria me fazer to feliz e que viveramos momentos
to... maravilhosos.
Tanto o duque quanto o prncipe Jozsel no concordaram que o casamento de
seus filhos se realizasse to depressa quanto Mikls desejava.
O duque fez questo de que seu futuro genro fosse  Inglaterra para
conhecer a maior parte da famlia Ling. Todos acharam o prncipe um
aristocrata encantador.
Fizeram tambm tantas festas e agrados para ele que Aletha chegou a
recear que seu noivo acabasse gostando mais de alguma de suas parentas do
que dela prpria.
Ela chegou a falar sobre seus temores com Mikls e ele, alm de lhe
asseverar que a amava extremadamente, provou isso com beijos arrebatados.
Tambm lhe disse centenas de vezes como se sentia frustrado porque o
casamento de ambos no se realizara to depressa quanto ele desejara.
Finalmente o duque concordou com o casamento, embora alegasse que aquela
pressa era descabida, e a cerimnia foi realizada na capela, em Ling.
A casa ancestral do duque ficou lotada de parentes e convidados que
tambm se hospedaram nas casas vizinhas.
Depois de alguns dias de lua-de-mel na Inglaterra, o casal voltou para a
Hungria.
O prncipe Jozsel fez questo de dar uma comemorao inesquecvel para
receber o filho primognito e a nora.
O palcio recebeu um nmero incrvel de convidados, houve muita msica
cigana e um baile com a melhor orquestra de Viena, regida pelo prprio
Strauss.
- Pode algum desejar mais que isso? - Aletha perguntou.
- Pois eu desejo voc s para mim! - Mikls queixou-se. Finalmente eles
escaparam e foram para a casa das montanhas.
Naquela manh, Aletha estava embevecida com a vista que se descortinava
diante de seus olhos quando Mikls se aproximou e enlaou-lhe a cintura.
- Agora sei que alcanamos o paraso - ela sussurrou.
- Adoro ouvi-la dizer isso. Quando constru esta casa pensei nela como um
perfeito refgio para mim. Agora sei que este lugar  muito mais prprio
para voc. Vejo que voc no  uma slfide, e sim um anjo. Meu anjo!
Sempre me pertencer!
Os lbios de Mikls encontraram os dela e ele a beijou at faz-la sentir
que ambos tocavam o sol e que a luz do astro-rei queimava dentro deles.
- Amo voc, Mikls... oh, como o amo! - Aletha murmurou.
- Eu tambm a adoro! Quero lhe falar do meu amor e demonstrar como a amo,
mas no posso fazer isso neste lugar, tendo um precipcio abaixo de ns.
Vamos para dentro de casa. Aletha viu o fogo do desejo nos olhos dele e
exclamou:
- Mas... querido, acabamos de nos levantar!
- Que importncia tem isso? Quando se est apaixonado, o tempo ou a hora
no importa! S sei que a amo, que a desejo e que voc  minha!
Aletha no conteve o riso e voltou com o marido para casa. O lindo quarto
que eles ocupavam tinha uma vista espetacular
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do vale. Mikls fechou a porta e a esposa abraou-o. Ele apertou-a
contra o peito.
- Querido... adorado... amo-o muito! Mas poderamos ficar um pouco
mais... l fora.  tudo to lindo! - Aletha sugeriu.
- Teremos amanh e o resto de nossas vidas para apreciar belas paisagens.
No momento s nosso amor importa - Mikls respondeu.
Tomando-a nos braos, levou-a para a cama e beijou-a arrebatadoramente.
Aletha se sentia gloriosamente feliz. Encontrara o amor e nada mais
importava. Posies, posses, at mesmo a prpria beleza no podiam ser
comparadas  maravilha que era o sentimento que ela e Mikls nutriam um
pelo outro.
Ambos se tornaram um no milagre do amor e por um instante s se ouviu a
msica das batidas de seus coraes.
Um raio do sol da manh, como manifestao da bno divina, tocou seus
corpos.
Para Aletha e Mikls nada havia de mais grandioso na terra do que o Amor.

Fim
